Saturday, November 30, 2024

A Autorrefulgência do Atma | Atma Bodha

 


A autorrefulgência do Atma é mencionada em vários manuscritos e está sempre presente quando precisamos descrever as qualidades do mesmo, como neste trecho do Atma Bodha, de Sri Shankaracharya. 

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23. A natureza do atma é Eternidade, Pureza, Realidade, Consciência e Bem-Aventurança, assim como a luminosidade do sol, o frescor da água e o calor do fogo.

24. A noção de “eu sei” é produzida pela união, devido ao discernimento incorreto, de uma modificação da mente com dois aspectos do atma: a Existência e a Consciência.

25. O atma não sofre mudanças, e buddhi [a mente] nunca é dotado de consciência. Porém, as pessoas acreditam que o atma é idêntico ao buddhi e se iludem pensando que elas mesmas são o conhecedor ou aquele que percebe [o mundo].

26. A Alma que se reconhece como jiva [impermanente] é dominada pelo medo do mesmo jeito que um homem ao considerar uma corda como sendo uma cobra. A Alma recobra o destemor ao perceber que ela não é a jiva, mas a própria Alma Suprema.

27. A mente, os órgãos dos sentidos e etc. são iluminados apenas pelo atma, assim como um jarro ou tigela são iluminados por uma lamparina. Mas tais objetos não podem iluminar a si mesmos.

28. Assim como uma lamparina não precisa de outra lamparina para iluminar a si mesma, o Atma, sendo a própria Consciência, não precisa de outro instrumento de consciência para iluminar a si mesmo.

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Traduzido da versão em inglês de Swami Nikhilananda

Traduzido para o português por Mariângela Carvalho

Publicado por Sri Ramakrishna Math, Madras


[N. do T.: As informações em colchetes são adendos do tradutor.]

Monday, November 25, 2024

O Algoritmo da Sadhana

Rene Magritte, Meditation, 1937


A execução de sadhana é um princípio seminal no caminho de purificação espiritual e para a aquisição de fortitude, discernimento e convicção. O tipo de sadhana depende do tipo de praticante e suas inclinações, mas é possível dizer que não há limites para escolher algumas práticas espirituais e permanecer nelas. Tudo pode se tornar uma sadhana se a intenção for corretamente dirigida, todas as atividades diárias podem se tornar uma prática espiritual dependendo da intenção com que são executadas. Os estudos podem se tornar uma sadhana; o momento de oração e/ou de recitação de mantras é uma sadhana que pode ter horários específicos para acontecer, ou podem ser feitos mentalmente a qualquer momento - é uma ótima sadhana tentar pensar em Deus durante os afazeres para treinar a mente a sempre estar Nele; o serviço devocional é uma importante e renovadora sadhana. A prática espiritual deve ser constante e sempre bem nutrida de alimentos como devoção, estudos, ouvir os ensinamentos dos Gurus, contemplação, oração, meditação, repetição de mantra, conversas com Deus, serviço abnegado, esforço frequente, renúncia e tantos outros. Assim como passamos horas do dia alimentando nossos algoritmos virtuais, com aquilo que consumimos e procuramos na internet para que eles nos entreguem conteúdos que apreciamos, a sadhana tem também seu próprio algoritmo que funciona sendo alimentado por nossos atos visíveis e invisíveis, e a frequência deles. Quanto mais alimentamos este algoritmo divino, mais ele nos entregará aquilo que buscamos: quanto mais devoção você dispende ao seu algoritmo, mais devoção ele te entrega; quanto mais renúncia você emprega nele, mais renúncia recebe; quanto mais concentração você empenha, mais concentração terá. Alimentar e estimular este algoritmo vai resultar em muitas realizações pessoais e muitos véus da ilusão caindo, além de ser uma fonte de felicidade para o praticante. Nas palavras da Santa Mãe: "A mente se purifica após árduas práticas. Sem a prática regular, não se conquista nada".

Wednesday, November 20, 2024

Hamsa Upanishad

 


A relação entre a natureza do Hamsa e OM (e seus desdobramentos) é o tema do Hamsa Upanishad, um tratado essencial para compreender os estados de consciência e seu percurso até atingir o estado Supremo, onde tudo repousa e obtem-se a experiência direta de transcendência.


Baixe em PDF: Academia.edu.


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Hamsa Upanishad


Om! Brahman é o Absoluto, este universo é o Absoluto.

Do absoluto surge o absoluto.

Retirando o absoluto do (universo) absoluto,

Resta apenas aquele Brahman absoluto.

Om! Que haja paz em mim.

Que haja paz no ambiente.

Que haja paz nas forças que agem sobre mim.

1. Gautama se dirigiu a Sanatkumara assim: “Ó Senhor, tu és o conhecedor de todos os Dharmas e versado em todos os Shastras, diga-me de qual maneira posso obter o conhecimento de Brahmavidya, por favor”. 

2. Sanatkumara respondeu: “Ouça, ó Gautama, aquele tattva [princípio, verdade], como exposto por Parvati após investigar todos os Dharmas e verificar a opinião de Shiva, é o conhecimento correto”.

3. Este tratado sobre a natureza de Hamsa, que concede o fruto da bem-aventurança e da salvação, e que é como um tesouro para o Yogue, é uma ciência muito mística e não deve ser revelado ao público.

4. Agora, vamos explicar a verdadeira natureza de Hamsa e Paramahamsa para o benefício do Brahmacharin (um buscador de Brahman e celibatário), que tem seus desejos controlados, é devotado a seu Guru e sempre contempla Hamsa e realiza que:

O Hamsa permeia todos os corpos como o fogo (ou o calor) em todos os tipos de madeira, ou em todos os tipos de óleo de sementes. Conhecendo-o assim, não se encontra a morte.

Tendo contraído o anus (com os calcanhares pressionados contra eles), erguido vayu (a respiração) do muladhara chakra [chakra base] através de um circuito triplo em volta do svadhisthana chakra [chakra sacro], chegado ao manipura chakra [chakra do plexo solar], atravessado o anahata chakra [chakra cardíaco], mantido o prana no visuddhi chakra [chakra da garganta] e alcançado o ajna chakra [o “terceiro olho”, no meio das sobrancelhas], a pessoa entra em contemplação em brahmarandhra [chakra coronário] no topo da cabeça e, tendo sempre meditado neste lugar com “Eu sou feito dos três matras”, reconhece seu Ser e se torna sem forma. [Os três matras correspondem às três letras que formam o OM, AUM*] (...) Isto é aquele Paramahamsa (o Hamsa Supremo, ou Ser Superior), que possui a resplandecência de crores de sóis e quem permeia todo este mundo.


[*Está contido na sílaba OM: 1. Jagrat, estado de vigília; corresponde ao som A em OM; é a criação; 2. Svapna, estado de sonho, corresponde ao som de U em OM; é a conservação; 3. Sushupti, estado de sono profundo; corresponde ao som de M em OM; é a dissolução; 4. Turiya, transcendência; corresponde ao silêncio após o OM; 5. Turiyatita, além da transcendência.]

Este Hamsa, que tem o intelecto (buddhi) como veículo, possui oito atividades. Quando está na pétala [do lótus do chakra] leste, existe a inclinação de uma pessoa para as ações virtuosas; na pétala sudeste, existe sono, preguiça; na pétala sul, há inclinação para a crueldade; na pétala sudoeste, há inclinação aos pecados; na pétala oeste, há inclinação para atividades sensuais; na noroeste, surge o desejo de caminhar e outros; na norte, surge o desejo por luxúria; na noroeste, surge o desejo de acumular dinheiro; na do meio (ou nos entremeios entre as pétalas), há a indiferença aos prazeres materiais. No filamento do lótus, surge o estado de vigília; no pericarpo, surge o svapna, o estado de sonho; em bija (a semente do pericarpo) surge sushupti, o estado do sono sem sonho; ao sair do lótus, tem-se turiya, o quarto estado [estado de unidade]. Quando Hamsa está absorto em nada [o som místico], o estado além do quarto é alcançado. Nada, que se encontra no fim do som e além da fala e da mente, é como um cristal puro que se estende do muladhara até o brahmarandhra. Ele é conhecido também como Brahman e Paramatma.

Aqui é dada a execução do Ajapa Gayatri: 

Agora, Hamsa é o rishi [o sábio]; a métrica é a do Avyakta Gayatri; Paramahamsa é a Deidade que preside; ‘Ham’ é a sílaba-semente; ‘Sa’ é a Shakti; So’ham é kilaka [um pilar; o pilar onde o mantra está ancorado]. Assim sendo, há seis passos. Há 21.600 Hamsas (ou respirações) em um dia e uma noite. Saudações a Surya, Soma, Niranjana (o imaculado) e Nirabhasa (o sem universo) [i.e. o ilimitado]. Que o incorpóreo e sutil me guiem (ou iluminem minha compreensão). Saudações a Agni-Soma. Depois, tem-se os anganyasas e karanyasas [ambos referem-se ao processo de tocar partes específicas do corpo enquanto recita mantras], que devem ser executados depois dos mantras, mesmo que sejam feitos geralmente antes, dentro do coração e outros assentos [do Atma]. Tendo feito assim, deve-se contemplar Hamsa como o Atma em seu próprio coração. Agni e soma são suas asas, a direita e a esquerda; o Omkara é sua cabeça; ukara e bindu são os três olhos e a face, respectivamente; Rudra e sua esposa, Rudrani, são os pés de Kanthata (ou a realização da unidade de Jivatma e Hamsa, do eu menor com o Paramatma, ou Paramahamsa, o Eu Superior), que são de dois modos: Samprajnata e Asamprajnata [dois estilos distintos de meditação ou estados de consciência]. 

Após isso, Unmani [um dos três estados de consciência transcendental] é a culminação do Ajapa mantra. Tendo assim refletido sobre manas [a mente] através do Aquilo (Hamsa), ouve-se o som nada após recitar este japa um crore de vezes. O nada que começa a ser ouvido é de dez tipos. O primeiro é chini, que faz o som igual ao de sua escrita; o segundo é chini-chini; o terceiro é o som de um sino; o quarto é o da concha; o quinto é o do tantiri (alaúde); o sexto é o som de tala (pratos); o sétimo o da flauta; o oitavo o do bheri (tambor); o nono é o de mridanga (tambor duplo); o décimo é o das nuvens (os trovões). Pode-se experimentar o décimo sem os primeiros nove sons (através da iniciação de um Guru). No primeiro estado, o corpo se torna chini-chini; no segundo, surge a ruptura (bhanjana) do corpo; no terceiro, surge a perfuração (bhedana); no quarto, a cabeça treme; no quinto, o palato produz saliva; no sexto, o néctar é alcançado; no sétimo, o conhecimento daquilo que está escondido surge; no oitavo, para-vak [a voz Suprema] é ouvido; no nono, o corpo se torna invisível e o olho divino puro se desenvolve; no décimo, atinge-se Para-Brahman na presença (ou com o) do Atma, que é Brahman.

Na sequência, quando manas é destruída, quando ela, que é a fonte de sankalpa e vikalpa [pensamento e dúvida] desaparece, devido à destruição de ambos, e quando as virtudes e os pecados são queimados, ele brilha como Sadashiva, da natureza de Shakti que permeia tudo, sendo ele o OM, a refulgência em sua própria essência, o imaculado, o eterno, puro e mais quiescente. Assim é o ensinamento dos Vedas, e assim é o Upanishad.

Om! Brahman é o Absoluto, este universo é o Absoluto.

Do absoluto surge o absoluto.

Retirando o absoluto do (universo) absoluto,

Resta apenas aquele Brahman absoluto.

Om! Que haja paz em mim.

Que haja paz no ambiente.

Que haja paz nas forças que agem sobre mim.


Aqui termina o Hamsa Upanishad, como contido no Sukla-Yajur-Veda


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Traduzido para o inglês por K. Narayanaswami Aiyar

Traduzido para o português por Mariângela Carvalho

[N. do T.: As informações em colchetes são adendos do tradutor.]

Sunday, November 10, 2024

A Ciência do Hamsa III

 


A Ciência do Hamsa está explicada em diversos Upanishads e outras Escrituras. Nessa seção, vamos explorar alguns versos a respeito e seus significados.

º º º 

A metafísica do Mantra Hamsa está infundida em todas as almas individuais como o som feito pela respiração - a inalação faz ‘Ham’, a exalação faz ‘Sa’; e também pode ser ao contrário, a inalação faz “Sa” ou “So”, a exalação faz “Ham” -, mas o mistério maior deste que é o mantra mais inerente de todo ser vivo também reside para além do som e se encontra no silêncio.

O silêncio (ou espaço) entre a inalação e a expiração é o ponto onde devemos nos concentrar durante a prática (consciente) da repetição do Mantra Hamsa. Concentrar neste silêncio leva ao reconhecimento da Unidade com Deus. Este ponto não é um lugar físico, mas é a morada da Consciência Eterna. Quando, através da respiração, os espaços internos e externos se fundem, a consciência do corpo se dissipa e ficamos como que imóveis e livres das ondas mentais. 


Este silêncio entre a inalação e a expiração recebe o nome de Madhyadasha e refere-se ao espaço intermediário que conecta o eu material ao Eu Cósmico, o Atma ao Paramatma. No livro A Ciência do Hamsa - Eu Sou Aquilo, de Swami Muktananda, no prefácio, escrito por Swami Prajnanada, é dito:

O método de observar o processo é unir a mente à respiração. Então, sentindo-se uno com hamsa, entrar com a respiração que entra, “ham”, e sair com a respiração que sai, “sa”. Entre essas duas respirações há um momento de quietude total, como no instante em que um pêndulo que completou um arco fica imóvel antes de balançar de volta novamente. Esse é o lugar onde “ham” ou “sa” se fundem no espaço interno ou externo. Nesse ponto, a respiração é suspensa por um tempo antes de “sa” ou ‘ham” surgir novamente daquele local. Com a prática, o tempo durante o qual esse estado de quietude é mantido começa a aumentar, e a bem-aventurança do Eu é experimentada. Esse espaço é chamado de madhyadasha, o espaço intermediário, que é a morada do Eu, Deus, Verdade ou Consciência. Esse é o lugar de repouso. O mesmo espaço existe entre dois pensamentos. Quando um pensamento termina, antes que outro surja, há uma fração de momento em que nada acontece. A mente fica parada. Se alguém puder se aferrar a esse instante, todos os mistérios do mundo serão revelados, pois ele é a fonte de toda a criação. É por isso que Baba atribui tanta importância a esse estado de quietude. Esse, de fato, é o segredo do hamsa, a respiração, que é conhecido em todos os tempos pelos grandes santos. Recentemente aconteceu de eu ler o Evangelho Essênio da Paz, Livro Dois. Fiquei surpreso ao encontrar nele as seguintes palavras atribuídas a Jesus: “Nós adoramos a Respiração Sagrada que está colocada acima de todas as outras coisas criadas. Pois veja, o espaço soberano eterno e luminoso onde governam as estrelas incontáveis é o ar que inspiramos e o ar que expiramos. E no momento entre a inspiração e a expiração estão ocultos todos os mistérios do Jardim Infinito”.

A prática do Mantra Hamsa, além de promover a união com Deus, também altera a fisiologia do praticante. Segundo Paramahamsa Yogananda, este exercício acalma a respiração e resulta no desaceleramento do metabolismo, na redução da produção de dióxido de carbono na respiração celular (o que aumenta a guna sattva) e as atividades cardíacas diminuem.


Perceber aquele silêncio entre as duas sílabas é um dos grandes segredos dos Siddha Yogues. Como afirmado por Swami Muktananda no livro citado anteriormente: “Aquele que vem a conhecer aquele momento da fusão das duas sílabas experimenta a Verdade”.


[Trechos de A Ciência do Hamsa - Eu Sou Aquilo, de Swami Muktananda, traduzidos por Eleonora Meier.] 

Sunday, October 27, 2024

Kaivalya Upanishad

 


Kaivalya é um dos nomes dados ao estágio em que se atinge a liberação. É dito que o estado de Kaivalya-mukti seja o ideal mais elevado em termos de liberação. Mas o que isso significa? Kaivalya é um processo no qual o praticante vai se afastando de todos os objetos dos sentidos e materialidades para constatar que ele e Brahman são um. Kaivalya também é o objetivo final da Ashtanga Yoga, significando solitude, isolamento e desapego. Este Upanishad repete e reafirma o Mahavakya mais importante, "Tat Tvam Asi", ou "Tu és Aquilo", uma maneira de dizer que Atma e Paramatma são um e o mesmo. 

Baixe em PDF: Academia.edu.

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Kaivalya Upanishad

Om! Que Ele nos proteja, que Ele nos alimente.

Que possamos trabalhar juntos com grande energia.

Que nosso estudo seja vigoroso e eficiente.

Que não disputemos mutuamente (ou, que não odiemos ninguém).

Om! Que haja Paz em mim!

Que haja Paz no ambiente!

Que haja Paz nas forças que agem sobre mim!

1. Então, Ashvalayana se aproximou do Senhor Paramesthi (Brahma) e disse: Ensine-me, ó Senhor, o conhecimento de Brahman, o mais elevado, sempre cutlivado pelos bons, escondido e através do qual um sábio se afasta instantaneamente de todos os pecados e alcança o Purusha [espírito supremo] mais elevado que o mais elevado.

2. A Ashvalayana, o Senhor Paramesthi respondeu: Saiba que através da fé, da devoção e da meditação, não pelo trabalho, nem pela progênie, nem pela riqueza, mas pela renúncia, é que alguns atingem a imortalidade.

3. Mais alto que o céu, sentado na caverna (Buddhi) [na caverna do coração], aquilo brilha - aquilo que é alcançado pelos autocontrolados. Os autocontrolados, possuidores da mente pura, certamente já verificaram a Realidade através do conhecimento da Vedanta e através de Sannyasa, ou renúncia. Na esfera de Brahma, no momento da dissolução cósmica, todos eles serão liberados da mais alta imortalidade aparente do universo manifestado.

4-5. Em um local recluso, sentado em postura confortável, puro, com o pescoço, cabeça e corpo eretos, vivendo na última das ordens da vida religiosa [i.e. no último dos quatro estágios de ashrama, o estágio do renunciante], tendo controlado todos os sentidos, saudando seu preceptor com reverência, meditando no lótus do coração (meditando em Brahman), imaculado, puro, claro e sem tristezas.

6. Ele que é o inconcebível, imanifesto, de infinitas formas, o bem, o pacífico, imortal, a origem dos mundos, sem começo, meio e fim, o único, que permeia tudo, Consciência, Bem-Aventurança, sem forma e maravilhoso.

7. Meditando no mais elevado Deus, aliado à Uma [Parvati, consorte de Shiva], poderoso, com três olhos, de pescoço azulado e sereno, o sábio chega a Ele, que é a fonte de tudo, a testemunha de tudo e que está além da escuridão [avidya, ignorância].

8. Ele é Brahman, Ele é Shiva, Ele é Indra, Ele é o Imutável, o Supremo, o Autorresplandecente. 

9. Apenas Ele é tudo que já foi e tudo que será, o Eterno. Por conhecê-Lo, transcende-se a morte. Não há outro caminho para a liberdade.

10. Por ver o Atma em todos os seres, e todos os seres no Atma, atinge-se o mais elevado Brahman - não de outras maneiras.

11. Ao tornar o Atma o arani inferior e o OM o arani superior, pela repetida fricção do conhecimento, um sábio queima todas as amarras. [arani é o pequeno pedaço de madeira usado para acender o fogo em rituais.]

12. Com seu eu iludido por Maya, é este eu que se identifica com o corpo e faz todos os tipos de coisas. Em estado de vigília, é ele (a Jiva) que atinge a satisfação através dos variados objetos de prazer, como mulheres, comidas, bebidas, etc.

13. No estado de sonho, a Jiva sente prazer e dor numa esfera de existência criada por sua própria Maya, ou ignorância. Durante o estado de sono profundo, quando tudo se dissolve (em seu estado causal), ela é dominada por tamas, ou não-manifestação, e vem a existir em sua forma de Bem-Aventurança.

14. Novamente depois, devido à conexão com as ações das vidas passadas, aquela mesma Jiva retorna ao estado de sonho ou ao de vigília. Do ser que atua nas três cidades (os estados de vigília, sonho e sono profundo) surgiu toda a diversidade [o universo material]. Ele é o substrato, a Bem-Aventurança, a Consciência indivisível, onde as três cidades se dissolvem. 

15. A partir disso, surge o prana (vitalidade), a mente, todos os órgãos, o céu, o ar, o fogo, a água e a terra que sustenta tudo.

16. Aquilo que é o Brahman Supremo, a alma de todos, a grande sustentação do universo, mais sutil que o sutil, e eterno: este és tu, e tu és Aquilo. 

17. Aquele que manifesta os fenômenos, como os estados de vigília, sonho e sono profundo, eu sou aquele Brahman: ao perceber isto, uma pessoa é liberada de toda a servidão.

18. O que constitui o desfrutar, o desfrutador e o desfrute nos três planos, diferente de todos eles, eu sou; a Testemunha, a Consciência Pura, o Bem Eterno.

19. Apenas em mim, tudo nasce; em mim, tudo repousa; e em mim, tudo é dissolvido. Eu sou aquele Brahman, o sem segundo. 

20. Eu sou menor do que o menor, assim também, sou o maior de todos. Eu sou o universo múltiplo. Eu sou o Ancestral, o Purusha e o Governante. Eu sou o Refulgente e o Todo-Bom. 

21. Eu sou sem braços e pernas, de poder inconcebível. Eu vejo sem olhos e ouço sem ouvidos. Eu conheço tudo e sou diferente de tudo. Ninguém pode conhecer a mim. Eu sou sempre a Inteligência.

22. Apenas eu sou versado nos vários Vedas, eu sou o revelador da Vedanta, ou Upanishads, e também sou o Conhecedor dos Vedas. Para mim, não há mérito nem demérito, não sofro qualquer destruição, não tenho nascimento e nem qualquer identidade com o corpo ou com os órgãos. 

23-24. Para mim, não há terra, nem água, nem fogo, nem ar, nem espaço. Ao conceber o Paramatman como aquele que reside na cavidade do coração [Chidakasha], que é sem partes [inteiro] e um sem um segundo, a Testemunha de tudo, além da existência e da não-existência, atinge-se o próprio Paramatman Puro.

25. Aquele que estuda o Shatarudriya [conjunto de mantras dedicados às cem formas e poderes do Senhor Rudra, ou Shiva] é purificado pelo fogo, e é purificado do pecado de beber, purificado do pecado de matar um Brahmana, dos atos feitos consciente ou inconscientemente. Por este conhecimento, ele obtém refúgio em Shiva, o Ser Supremo. Quem pertence à mais alta ordem da vida [o renunciante], deve repetir [os versos do Shatarudriya] sempre ou uma vez por dia.

26. Através de tais práticas, atinge-se o Conhecimento que destrói o oceano de Samsara e da repetida transmigração. Assim, conhecendo isso, atinge-se o fruto de Kaivalya, ou liberação. Atinge-se com certeza a liberação.

Om! Que Ele nos proteja, que Ele nos alimente.

Que possamos trabalhar juntos com grande energia.

Que nosso estudo seja vigoroso e eficiente.

Que não disputemos mutuamente (ou, que não odiemos ninguém).

Om! Que haja Paz em mim!

Que haja Paz no ambiente!

Que haja Paz nas forças que agem sobre mim!


Aqui termina o Kaivalya Upanishad, como contido no Krishna Yajur Veda

º º º

Traduzido para o inglês por Swami Madhavananda

Traduzido para o português por Mariângela Carvalho

Publicado pelo Advaita Ashrama, Calcutá


[N. do T.: As informações em colchetes são adendos do tradutor.]

Thursday, October 24, 2024

Atma Upanishad

 

Hilma af Klint, Altarpieces - Group X, 1915


Este sucinto Upanishad versa sobre os três diferentes tipos de Ser (Self): o ser (o corpo denso), o Ser interno (o corpo sutil) e o Ser supremo (Brahman). O Ser supremo é a testemunha eterna e o criador da Realidade. Apenas por Seu brilho é que tudo mais brilha. 


Baixe em PDF: Academia.edu



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Atma Upanishad

Om! Ó Devas, que possamos ouvir com nossos ouvidos aquilo que é auspicioso.

Que possamos ver com nossos olhos aquilo que é auspicioso, ó Vós, merecedores de adoração!

Que possamos desfrutar do período de vida concedido pelos Devas,

Louvando-os com nosso corpo e membros firmes!

Que o glorioso Indra nos abençoe!

Que o onisciente Sol nos abençoe!

Que Garuda, o raio contra o mal, nos abençoe!

Que Brihaspati nos conceda o bem-estar!

Om! Que haja Paz em mim!

Que haja Paz no ambiente!

Que haja Paz nas forças que agem sobre mim!

Capítulo I


1. Agora, Angirah [o Rishi que ouvia o ensinamento]: o Espírito se manifesta de três maneiras: o ser, o Ser interno e o Ser supremo.


2. Há os órgãos, no lado externo e interno: pele, carne, cabelo, polegar, dedos, coluna, unhas, tornozelos, estômago, umbigo, pênis, quadril, coxas, bochechas, orelhas, sobrancelhas, testa, mãos, flancos, cabeça e olhos. Eles todos nascem e morrem, e são eles que constituem o ser. 


3. Depois, há o Ser interno, que é indicado pelos elementos terra, água, fogo, ar e espaço; [junto aos elementos sutis de] desejo, aversão, prazer, dor, ilusão, dúvidas e memória; (marcado pelo) tom agudo e sem sotaque, com a pronúncia (das vogais) curtas e longas; aquele que ouve, aquele que cheira, aquele que degusta, aquele que lidera, o agente, o ser do conhecimento está de cara a cara com aquele que tropeça, grita, desfruta, dança, canta e toca instrumentos musicais. Ele é aquele espírito antigo que faz a distinção entre Nyaya e Mimamsa*, entre as leis instituídas [nas Escrituras] e o objeto específico da audição, do olfato e do toque. Este é o Ser interno.


[*Nyaya: onde a Realidade Suprema não pode ser compreendida diretamente devido aos desvios dos sentidos e ao conhecimento errôneo da realidade. Mimamsa: uma das filosofias de base do Hinduísmo que estabelece regras para a interpretação dos Vedas.]


4. Depois, vem o Ser supremo, o imperecível. Deve-se meditar Nele com a ajuda das etapas iogues de controle da respiração, recolhimento (dos órgãos dos sentidos), fixar a mente, contemplação e concentração. Ele deve ser compreendido por aqueles que pensam sobre o Eu como sendo a semente de uma figueira-da-bengala, ou como um grão de milheto, ou como a centésima parte de um fio de cabelo. Assim, Ele é conhecido e desconhecido. Ele não nasce, não morre, não seca, não se molha, não se queima, não treme, não se divide, não sua. Ele está além das gunas, é o espectador, é puro, sem partes, único, sutil, não possuindo nada, imaculado, imutável, desprovido de som, tato, cor, gosto, odor, é indubitável, não apegado, onipresente. Ele é impensável e invisível. Ele purifica o impuro, o profano. Ele não age. Ele não está sujeito à existência empírica.


Capítulo II


1. O bom, chamado de Atma, é puro, um e sempre não-dual, na forma de Brahman. Somente Brahman brilha.


2. Ainda que o mundo tenha suas distinções, como afirmação, negação, etc., somente Brahman brilha.


3. Com outras distinções, como professor e discípulos, somente Brahman aparece. Do ponto de vista da verdade, há somente o puro Brahman.


4. Nem o conhecimento, nem a ignorância, nem o mundo, nem nada mais existe. O que dá início à vida empírica é a aparência do mundo como real. 


5. O que dá forma à vida empírica é sua aparência como irreal.


5(b)-6. Qual disciplina é necessária para saber que “isto é um jarro”, exceto aquela de adequação dos meios do conhecimento correto? Assim que é dado, o conhecimento do objeto surge. O sempre-presente Ser brilha quando os meios de Sua cognição estão presentes. 


7. Nem local, nem tempo, nem pureza são necessários. O conhecimento de “Eu sou Devadatta” [aquele que foi dado por Deus] não depende de nada.  


8. Do mesmo modo, o conhecimento de “Eu sou Brahman”, daquele que é o Conhecedor de Brahman, é independente. Assim como todo o mundo é iluminado pelo sol, pelo esplendor do Conhecimento de Brahman tudo é iluminado. 


9-10(a). O que pode iluminar o não-existente e ilusório não-Ser? Aquele que dota de importância os Vedas, Shastras, Puranas e todos os outros seres, o que Ele não iluminaria?


10(b)-11. Uma criança ignora a fome e as dores do corpo quando brinca. Da mesma forma, o feliz Conhecedor de Brahman se deleita sem o sentido de “meu” e “eu”.


12. Existindo como o Ser de todos, ele (o Conhecedor) está sempre presente por permanecer em seu Ser. Livre de toda a riqueza, Ele se alegra sempre; embora sem companhia, Ele é poderoso. 


13. Embora não coma, está sempre contente. Sem fazer comparações, ele olha para todos da mesma forma. Embora aja, ele não faz nada; embora coma frutas, ele não as experimenta.


14-17: Ainda que viva num corpo, ele não tem corpo; embora delimitado, ele é onipresente. O Conhecedor de Brahman, sem corpo e sempre existente, nunca é afetado pelo prazer ou desprazer do bem e do mal. Como parece estar envolto por Rahu (a escuridão), é dito que o inacobertável sol está coberto por homens iludidos, que não conhecem a verdade. Do mesmo modo, pessoas iludidas contemplam o melhor dos Conhecedores de Brahman, os liberados das amarras do corpo, como se eles estivessem num corpo, já que parecem estar. O corpo daquele que já está liberado [jivanmukta] se parece com a pele trocada de uma cobra. 

 

18. Um pouco movido, aqui e ali, pelo ar vital, aquele corpo é levado como um pedaço de madeira para cima e para baixo por águas caudalosas. 


19-20. Pelo destino, o corpo é levado pelos contextos das experiências nos momentos apropriados. Do contrário, aquele que abandona todas as migrações [de corpo em corpo], que abandona tanto o conhecimento quanto o incognoscível, que permanece como o Ser não-qualificado puro, é o próprio Shiva manifesto. Ele é o melhor dos Conhecedores de Brahman. Na mesma vida, o Conhecedor de Brahman é o sempre livre, ele realiza seu Fim.


21. Quando todos os adjuntos [os upadhis, ou fatores que criam a ilusão de separatividade entre o ser e o Ser] tiverem perecido, sendo ele (o Conhecedor) Brahman, ele é assimilado como o Brahman não-dual, assim como um homem que com as vestimentas apropriadas é um ator, e sem elas está em seu estado natural.


22(a). Da mesma forma, o melhor dos Conhecedores de Brahman é sempre o próprio Brahman e ninguém mais. 


22(b)-23. Assim como o ar se torna novamente ar quando o jarro é destruído, quando determinadas cognições são dissolvidas, o próprio Conhecedor de Brahman se torna nada além de Brahman, assim como o leite derramado no próprio leite, o óleo no óleo, e a água na água se tornam leite, óleo e água.


24(a). Assim como quando combinados eles se tornam um, do mesmo modo, o sábio que conhece o Atma se torna o Atma.


24(b). Deste modo, a liberação do corpo é o estado infinito do Ser. 


25. Tendo conquistado o estado de Brahman, o Yogui não renasce mais, porque seu corpo de ignorância foi completamente consumido pelo conhecimento experimental de ser como o Ser. 


26-27(a). Já que o Yogui se tornou Brahman, como pode Brahman renascer? A servidão e a liberação construídas por Maya não são reais por si mesmas com relação ao Ser, assim como o aparecimento e desaparecimento da cobra não estão relacionados com a corda imóvel.


27(b). Servidão e liberação podem ser descritas como real e irreal, e acontecem devido à ignorância que oculta a verdade.


28-29. Mas Brahman não sofre tal ocultação. Ele é inacobertável, não havendo nada além Dele mesmo para cobrir Ele mesmo. Ideias como “isso é” e “isso não é”, no que se refere à Realidade, são apenas ideias no intelecto. Elas não pertencem a uma Realidade eterna. Por isso, a servidão e a liberação são arranjadas por Maya e não pertencem ao Ser.


30. Tanto na Verdade Suprema como no céu, imparcial, inativo, quiescente, sem defeitos, imaculado e não-dual, como poderá haver espaço para construções mentais?


31. Nem a supressão, nem a geração; nem o vínculo, nem o esforço; nem a busca pela liberdade, nem os liberados - esta é a verdade metafísica. 


Om! Ó Devas, que possamos ouvir com nossos ouvidos aquilo que é auspicioso.

Que possamos ver com nossos olhos aquilo que é auspicioso, ó Vós, merecedores de adoração!

Que possamos desfrutar do período de vida concedido pelos Devas,

Louvando-os com nosso corpo e membros firmes!

Que o glorioso Indra nos abençoe!

Que o onisciente Sol nos abençoe!

Que Garuda, o raio contra o mal, nos abençoe!

Que Brihaspati nos conceda o bem-estar!

Om! Que haja Paz em mim!

Que haja Paz no ambiente!

Que haja Paz nas forças que agem sobre mim!


Aqui termina o Atma Upanishad, como contido no Atharva Veda.


º º º

Traduzido para o inglês por Prof. A. A. Ramanathan

Traduzido para o português por Mariângela Carvalho

Publicado pela Theosophical Publishing House, Chennai


[N. do T.: As informações em colchetes são adendos do tradutor.]

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