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Sunday, April 27, 2025

Paramahamsa Parivrajaka Upanishad

 

Hilma af Klint, O Cisne nº 1 - Group IX, 1914-15


Mais um título dentro dos Upanishads sobre a renúncia, este Paramahamsa Parivrajaka enaltece o errante (parivrajaka) paramahamsa, uma das mais altas categorias de renunciantes, aquele que se fidelizou a Brahman através do poder do Om, o Brahma-Pranava. Uma conversa entre Brahma e seu criador, Adinarayana (Vishnu), este Upanishad vem para reforçar o intuito do hamsa, ou “a alma migratória”, que vai atingindo níveis maiores de vairagya (desapego) e viveka (discernimento), vida após vida, até renunciar por completo. 

Baixe em PDF: Academia.edu. 

º º º  

Om! Ó Devas, que possamos ouvir com nossos ouvidos aquilo que é auspicioso.

Que possamos ver com nossos olhos aquilo que é auspicioso, ó Vós, merecedores de adoração!

Que possamos desfrutar do período de vida concedido pelos Devas,

Louvando-os com nosso corpo e membros firmes!

Que o glorioso Indra nos abençoe!

Que o onisciente Sol nos abençoe!

Que Garuda, o raio contra o mal, nos abençoe!

Que Brihaspati nos conceda o bem-estar!

Om! Que haja Paz em mim!

Que haja Paz no ambiente!

Que haja Paz nas forças que agem sobre mim!


1. Então, o Senhor Brahma, aproximando-se de seu pai, Adinarayana, o Ser Supremo, com reverências, disse: “Senhor, de Sua boca, todas as coisas que se referem à natureza das castas e ordens da vida foram ouvidas, conhecidas e compreendidas. Agora, desejo conhecer as características de um monge mendicante paramahamsa. Quem tem direito à renúncia? Quais as características de um monge mendicante? Quem é um paramahamsa? Como é sua mendicância? Fale sobre isso”. 

O Senhor Adinarayana então respondeu: “A pessoa que tem direito à renúncia é o sábio que passou pelo difícil caminho de aprender os saberes sagrados com um bom preceptor; compreendeu todo o esforço necessário para a felicidade neste mundo e no próximo; entendeu a necessidade de descartar, como se fosse vômito, os três primeiros desejos, as três primeiras inclinações (apego ao corpo, etc), o sentimento de posse e o egoísmo; concluiu os estudos como brahmacharin, que é a maneira de atingir o caminho da liberação, e que se tornou chefe de família. Depois do estágio de chefe de família, ele deve se tornar um habitante da floresta (vanaprastha) e depois renunciar à vida terrena. Como alternativa, ele pode renunciar a partir do estágio de celibatário, ou do estágio de chefe de família ou de habitante da floresta. Ou, sendo ele ou não um observador de votos, tendo completado os estudos, descontinuado seu ritual de fogo ou não mantido o fogo sagrado, ele deve renunciar no mesmo dia em que se desencantar com o mundo. Assim, descontente com todos os assuntos terrenos, seja como celibatário, chefe de família ou habitante da floresta, ele deve buscar a aprovação de seu pai, mãe, esposa, amigos próximos e, na ausência desses, de um discípulo ou companheiro de hospedagem, e então renunciar ao mundo”.


2. “Há prescrições a respeito de realizar o sacrifício chamado Prajapatya, no qual Brahma é a deidade que preside, antes que o duas-vezes-nascido abrace a renúncia. Porém, embora seja prescrito, ele pode não realizá-lo. Ele deve realizar apenas o sacrifício Agneyi, cuja deidade que presidente é Agni, o deus do fogo, uma vez que agni é o sopro vital (prana). Deste modo, ele fortalece este sopro vital. Depois, poderá realizar o sacrifício Traidhataviya, cuja deidade que preside é o deus Indra. Por este sacrifício, os três fluidos vitais, chamados sattva (sêmen), rajas (sangue) e tamas (o escuro), tornam-se fortes como o fogo. Tendo realizado o sacrifício desta maneira, ele deve inalar o fogo sagrado recitando o seguinte mantra: “Ó Fogo, este sopro vital é sua fonte; assim como nasceste no momento apropriado do ano, tu te  revestes de esplendor. Por conhecê-lo (o atma, sua fonte definitiva), é que tu te fundes ao prana, a fonte. Que tu consigas expandir tua riqueza de conhecimento transcendental”. Então, recitando este mantra, ele sentirá o cheiro do fogo e dirá: “Esta é a fonte do fogo, o sopro vital. Que tu chegues ao prana, que tu chegues à fonte. Swaha”. Assim diz o mantra. Tendo obtido o fogo sagrado na casa de um sábio védico bem versado, ele sentirá o cheiro do fogo da maneira descrita anteriormente. Se ele se afligir (por doença, por exemplo), ou não conseguir o fogo sagrado, deve oferecer as oblações na água, já que a água é presidida por todos os deuses. Recitando “Eu ofereço oblações a todos os deuses, Swaha”, ele executa a oblação e pega uma pequena parcela da oblação oferecida, que é misturada com ghee, e comerá, já que isso traz benefícios. No caso dos Kshatriyas [a casta dos guerreiros] e outros que não têm direito à renúncia, a regra é para que eles busquem pela liberação no caminho dos bravos (ao encarar a morte no campo de batalha), ou do jejum (até a morte, como uma disciplina espiritual), ou entrar na água para nunca mais sair, ou entrar no fogo, ou sair em uma grande jornada (na qual desfalecem por exaustão). Se ele se afligir por doença, poderá renunciar mentalmente ou pela palavra (com a recitação de mantras). Este é o caminho de sua renúncia. 


3. Uma pessoa saudável, que deseja renunciar ao mundo, no momento oportuno dos estágios da vida, deve executar a cerimônia de shraddha [em memória dos antepassados] sobre si mesma e o ritual de fogo para livrar-se das paixões (vraja homa). Deve infundir-se ao fogo ritualístico para que ele esteja simbolicamente presente em sua pessoa. Sua proficiência sobre os assuntos do mundo e sobre o aprendizado védico, assim como os quatorze meios de ação sob seu controle (karanas), devem ser simbolicamente transferidos para seu filho. Na ausência de um filho, deve ser passado para um discípulo; na ausência deste, pode ser transferido para seu atma. Ele deve então meditar em Brahman como idêntico a seu próprio Ser, pronunciando as palavras “Brahman és tu” e “O Sacrifício és tu”. A mãe-Veda, a sustentação da existência de Brahman e a personificação da essência de todo o aprendizado, deve ser oferecida às águas recitando as três vyahritis [palavras sagradas presentes nas recitações védicas que significam os três planos: Bhur (terra), Bhuvah (atmosfera) e Swaha (céu)], que devem ser entoadas como as letras a, u e m (Om) do Pranava. Ele deve então, cerimoniosamente, beber água mantendo a atenção em Pranava; arrancar o tufo de cabelo sussurrando Pranava; quebrar o cordão sagrado; desfazer-se das vestimentas deixando-as no chão ou nas águas; desnudado, recitar o mantra “Om Bhur Swaha, Om Bhuvah Swaha e Om Suvah Swaha”; meditar em sua própria forma; novamente recitar mentalmente, ou pronunciando o Pranava e as vyahritis separadamente, entoando três vezes as palavras de despedida: “Eu renunciei, eu renunciei, eu renunciei”, em tons gentis, médios e agudos; ater-se profundamente à meditação no Pranava e erguer sua mão dizendo: “Libertos do medo, a todos a partir de mim, Swaha”. Ele deve então partir para o norte ponderando sobre o significado de grandes versos espirituais, como “Eu sou Brahman”, “Tu és aquilo”, e permanecer em seu estado desnudo. Isto é renúncia. 


Se alguém não pode seguir esta forma de renúncia, deve recitar primeiramente a oração do chefe de família e depois os textos: “Liberdade do medo a todos os seres, todas as coisas emanam de mim, tu és meu amigo e me proteges. Tu és a fonte de força. Tu és o vraja (arma) de Indra que aniquilou o demônio Vritra. Seja uma bênção para mim. Previna aquilo que é pecaminoso”. Ao recitar este mantra precedido do Pranava, ele deve pegar o emblemático cajado de bambu, o jarro de água e vestir a faixa na cintura, a tanga e um manto ocre; depois, apresentar-se a um bom Guru, curvar-se a ele e receber da boca do Guru o ensinamento da escritura “Tu és aquilo”, precedido pelo Pranava. Depois, usará uma vestimenta maltrapilha, ou uma vestimenta de casca de árvore ou de pele de veado; evitará assentar-se à beira de um rio, para prevenir misturar-se às multidões. Deve banhar-se durante os três períodos prescritos, ouvir a exposição da Vedanta e praticar o Pranava; estar bem estabelecido no caminho da realização de Brahman; fundir seu desejo favorito no atma; livrar-se do “meu” e estabelecer-se no Eu; abandonar a paixão, raiva, ganância, ilusão, intoxicação, rivalidade, orgulho falso, egoísmo, intolerância, arrogância, desejos, ódio, enaltecer-se, impetuosidade, sentimento de posse, etc. Munido com sabedoria e desapego, deve deixar riquezas e mulheres, e possuindo uma mente pura, deve ponderar sobre as verdades de todos os Upanishads; dedicado especialmente a guardar o celibato, a não-posse, a atitude de dano ao universo e a veracidade; conquistar seus sentidos e livrar-se da afeição interna e externamente; procurar esmolas para sustentar o corpo, como se fosse uma vaca indefesa, com membros das quatro castas, exceto aqueles que são amaldiçoados e caídos; tal pessoa é considerada como merecedora da realização de Brahman. Ele deve ver a equanimidade no ganho e na perda de esmolas sempre; comer os alimentos, dados como esmola em vários locais, como uma abelha, usando as mãos como recipiente; não aumentar a gordura corporal e tornar-se magro; sentir que ele é Brahman; ir para um vilarejo para servir ao preceptor. Ele deve, firme na conduta, sair sozinho por alguns meses e não deve viajar com mais ninguém. Quando tiver atingido bom senso o suficiente (desapego), poderá se tornar um kutichaka ou um bahudaka, ou um hamsa ou um paramahamsa. Ao recitar os respectivos mantras, deve desfazer-se, na água, de sua faixa na cintura, tanga, cajado, jarro de água e prosseguir nu. Deve passar uma noite em um vilarejo, três noites em um local sagrado, cinco noites em uma cidade e sete noites em um local de peregrinação. Não deve ter residência fixa; ter a mente firme; não recorrer a um local com uma fogueira (para se aquecer); livrar-se das emoções; descartar tanto os rituais quanto os não-rituais; receber esmolas apenas para sustentar o corpo, com equanimidade com os ganhos e perdas, da mesma maneira que uma vaca; tomar água apenas num local com água [não carregar água consigo] e ter sua morada em um local solitário, livre de perturbação. Ele não deve pensar em ganho ou perda, mas estar interessado em erradicar as boas e más ações; dormir sempre no chão; descartar barbear-se; abandonar a restrição de observar chaturmasya [período de quatro meses que são propícios para as práticas espirituais], interessar-se profundamente na meditação pura; ser avesso a riquezas, mulheres e à vida na cidade; comportar-se como uma pessoa insana, embora seja perfeitamente são; não possuir emblemas ou distintivos de conduta; não ter sonhos, uma vez que dia e noite são o mesmo para ele; e ser muito atento ao caminho da meditação profunda em Brahman na forma de Pranava, investigando a natureza do Eu. Aquele que abandona seu corpo ao recorrer à renúncia é um monge mendicante paramahamsa. 


4. O Senhor Brahma perguntou a Narayana: “Senhor, o que é Brahma-Pranava?”. O Senhor Narayana respondeu: “O Brahma-Pranava consiste em dezesseis partes e é conhecido em quádruplos nos quatro estados (vigília, sono, etc.). No estado de vigília, há os quatro estados, por exemplo: a vigília dentro da vigília, a vigília dentro do sono, etc., isso é jagrat-jagrat; no estado de sonho, há os quatro estados, como a vigília dentro do sonho, etc., isso é swapna-jagrat; em sono profundo, há os quatro estados: vigília dentro do sono profundo, sonho dentro do sono profundo, etc., isso é sushupti-jagrat; no quarto estado, turiya, há os quatro estados: vigília em turiya, sonho em turiya, etc., isso é turiya-jagrat. No estado de vigília de difusão distributiva (vyashti) [individuação], há a quadruplicidade de Vishva, a saber, Vishva-Vishva, Vishva-Taijasa, Vishna-Prajna e Vishva-Turiya [essas são as quatro formas de Sri Vishnu e o conjunto é conhecido como a deidade que preside os Upanishads]. 


No estado de sonho da individuação, há a quadruplicidade de Taijasa [iluminado], como Taijasa-Vishva, Taijasa-Taijasa, Taijasa-Prajna e Taijasa-Turiya. No estado de sono profundo de Prajna [sabedoria], há a quadruplicidade de Prajna-Vishva, Prajna-Taijasa, Prajna-Prajna e Prajna-Turiya. No quarto estado, Turiya, há a quadruplicidade de Turiya, como Turiya-Vishva, Turiya-Taijasa, Turiya-Prajna e Turiya-Turiya. Todos eles formam as dezesseis partes. 


Na letra “a” (em Om, Aum), há Jagrat-Vishva, na letra “u”, Jagrat-Taijasa, na letra “m”, Jagrat-Prajna, no ardha-matra [meia lua no símbolo de Om] está Jagrat-Turiya, no ponto [acima da meia lua] está Svapna-Vishva, no silêncio está Svapna-Taijasa, em kala [tempo] está Svapna-Prajna, em kalatita [que está além das energias] está Svapna-Turiya, em shanti [serenidade] está Sushupti-Vishva, em shantytita [o estado final da transcendência] está Sushupti-Taijasa, em pashyanti [o nível onde a linguagem se manifesta] está Turiya-Prajna, em para [para é o nível fonte da linguagem] está Turiya-Turiya. Os quatro estados de Jagrat pertencem à letra “a”; as quatro partes de Svapna pertencem à letra “u”; as quatro partes de Sushupti pertencem à letra “m”; as quatro partes de turiya pertencem ao ardha-matra. Este é o Brahma-Pranava. É isto que deve ser adorado pelos paramahamsas,  turiyatitas e avadhutas. Através disso, Brahma é iluminado. Esta é a liberação no estado desencarnado (videhamukti)”.


5. O Senhor Brahma fez outra pergunta: “Senhor, como pode alguém que não tenha o cordão sagrado, nem o tufo de cabelo, ser uma pessoa que dispensou todas as atividades terrenas? Como pode ele estar unicamente devotado à absorção em Brahman? Como pode ele ser um Brahmana?”. 


O Senhor Vishnu (Narayana) respondeu: “Meu filho, quem possui o conhecimento do atma não-dual é quem realmente possui o cordão sagrado (i.e. o próprio conhecimento é o cordão sagrado). Sua profunda absorção na meditação é, ela mesma, o tufo de cabelo. Essa atividade em si mesma é a posse do anel santificador da erva sagrada (pavitra). Quem executa todas as ações é Brahmana, profundamente absorto em Brahman, ele é o ser iluminado (deva), ele é o sábio, ele pratica penitência, ele é o mais nobre, ele é superior a todos. Saiba que este “ele” sou Eu. 


Neste mundo, é muito raro o monge mendicante que é um paramahamsa. Se existe um, ele é eternamente puro, apenas ele é o Purusha glorificado nos Vedas. Ele, que é um homem superior (mahapurusha), repousa sua mente em mim. Eu, também, estou apenas nele. Ele está para sempre satisfeito. Está livre dos efeitos do frio e do calor, da felicidade e da tristeza, da honra e da desonra. Ele suporta o insulto e a ira. Ele não possui as seis enfermidades humanas (fome e sede, tristeza e ilusão, velhice e morte), e está livre das seis propriedades (do corpo, do nascimento, da existência, da mudança, do crescimento, da decadência e da morte). Ele não sofre intervenção (ele não está subjugado) do estado de velhice ou qualquer outro. Exceto o Eu, ele não vê mais nada. Com poucas vestimentas, sem se curvar a ninguém, nem pronunciando “Swaha”, já que ele não cultua nenhum deus, nem pronunciando “Swadha” (para beneficiar os antepassados), livre da culpa e do elogio, sem recorrer a mantras ou rituais, nem meditar em outros deuses além do Deus Supremo, abstendo-se de objetivos e de sua ausência, com todas as atividades encerradas, firmemente estabelecido na Consciência que consiste em Existência, Conhecimento e Bem-Aventurança, tendo ciência da bem-aventurança suprema, ele sempre medita no Brahma-Pranava, já que ele é apenas Brahman e, dessa maneira, ele se completa. Aquele que é assim, é um monge mendicante paramahamsa. Aqui termina o Upanishad. 


Om! Ó Devas, que possamos ouvir com nossos ouvidos aquilo que é auspicioso.

Que possamos ver com nossos olhos aquilo que é auspicioso, ó Vós, merecedores de adoração!

Que possamos desfrutar do período de vida concedido pelos Devas,

Louvando-os com nosso corpo e membros firmes!

Que o glorioso Indra nos abençoe!

Que o onisciente Sol nos abençoe!

Que Garuda, o raio contra o mal, nos abençoe!

Que Brihaspati nos conceda o bem-estar!

Om! Que haja Paz em mim!

Que haja Paz no ambiente!

Que haja Paz nas forças que agem sobre mim!

Aqui encerra o Paramahamsa Parivrajaka Upanishad, como contido no Atharva-Veda.

º º º 

Traduzido para o inglês por Prof. A. A. Ramanatha

Traduzido para o português por Mariângela Carvalho

Publicado pela Theosophical Publishing House, Chennai

[N. do T.: As informações em colchetes são adendos do tradutor.]

Friday, September 13, 2024

Kundika Upanishad

Este Upanishad condensa em poucos versos a conduta que o Sannyasin, o renunciante, deve ter até atingir a liberação, e ensina com breves palavras alguns conceitos profundos, como o Atma e o Paramatma, a consciência-testemunha (turiya) e a sobreimposição de objetos (adhyāsa), até chegar à finalização da prática espiritual em kaivalya, o estado de desapego e renúncia completos, quando o praticante consegue separar o espírito eterno (purusha) da energia material (prakriti). 

Baixe em PDF: Archive.org e Academia.org.

º º º

Kundika Upanishad


Om! Que todos os meus membros e fala, Prana, olhos, ouvidos, vitalidade e todos os sentidos cresçam com força.

Toda a existência é o Brahman dos Upanishads.

Que eu nunca negue Brahman, nem que Brahman negue a mim.

Que não exista qualquer negação,

Que não exista qualquer negação pelo menos vinda de mim.

Que as virtudes proclamadas nos Upanishads estejam comigo,

Que sou devotado ao Atma; que tais virtudes residam em mim.

Om! Que haja paz em mim!

Que haja paz no ambiente!

Que haja paz nas forças que agem sobre mim!


1-2. Após estudar as Escrituras durante o período imaculado de discipulado, no qual se devotou ao serviço do professor, o Brahmacharin, com a permissão do professor, pode se casar com uma esposa adequada. Depois, ao final da vida de chefe de família, ele poderá acender o fogo sagrado (da renúncia) com coragem e executar o sacrifício que dura um dia e noite, no qual Brahma e etc. são as deidades.


3. Então, após repartir sua propriedade entre os filhos da maneira correta, e abandonando todos os prazeres sensórios, ele poderá viajar para locais sagrados como um Vanaprastha [o monge peregrino que se refugia na floresta].


4. Subsistindo apenas de ar, ou de (ar e) água, ou com a adição (em caso extremo) de raízes bulbosas aprovadas [pelas Escrituras] e frutas, ele deve encontrar toda a vida terrena apenas em sua própria pessoa. Ele não deve, ao lembrar-se de seu conforto do passado, permitir que suas lágrimas molhem o chão.


5-7(a). Como se pode dizer que um homem, em companhia de sua esposa, tenha renunciado (à vida terrena)? Como pode alguém que é (meramente) conhecido por uma denominação (a de asceta) ter renunciado? Por isso, ele deve se purificar (primeiramente) ao renunciar o resultado de suas ações por meio do autocontrole (Vanaprastha); após isso, ele prosseguirá para a renúncia. Atinge-se o estágio da vida na floresta (Vanaprastha) após ter mantido o fogo sagrado (enquanto era chefe de família). Ele parte para a vida na floresta com autocontrole, acompanhado de sua esposa, como se fosse uma pessoa apegada a tal esposa. 


7(b)-8. “Por que ele deve se submeter (à vida de um monge mendicante) em vão, tendo abandonado a alegria da vida terrena? Qual é esse tormento (iminente), cujo pensamento deveria fazê-lo querer abandonar os grandes prazeres?”, tais são os questionamentos da esposa. “Eu temo pela (triste) vida no ventre (de outra mulher), e também temo as dores do calor, do frio, etc. Assim, desejo adentrar a caverna (o abrigo) da renúncia, que é o meio para atingir um estado transcendente indolor de Brahman”, assim ele respondeu.


9. Tendo renunciado ao fogo sagrado, ele não pode voltar a ele (nem mesmo recitando mentalmente os mantras pertinentes ao fogo).


10. “Porque eu (o mantra), pertencendo a este fogo sagrado, ao ser extinto (sendo incompatível com a renúncia), devo me fundir ao que está por vir (o conhecimento de Brahman).”


11. Ele pode repetir os mantras que pertencem ao Eu (a realização).


12. Ele obterá a consagração. Estará vestido com roupas coloridas (ocre). Deverá remover os pelos, exceto aqueles das axilas e das partes íntimas. Com a mão direita levantada, ele partirá como monge, abandonando o caminho da vida terrena. Ele deve seguir sem residência fixa. Vivendo de esmolas, poderá se aprofundar (nos textos vedânticos) e meditar (em sua identidade com o transcendente Brahman). Ele possuirá conhecimento puro (pavitram) pela proteção de todos os seres. 


13-14. O monge mendicante poderá ter um jarro de água, uma tigela para esmolas, um saco para carregar seus pertences, chinelos para atravessar uma longa distância (literalmente, acima dos três mundos), um manto para suportar o frio, um lençol para cobrir suas partes íntimas, um anel purificador (pavitram da erva sagrada), uma toalha de banho e uma vestimenta para se cobrir. Fora isso, o asceta deve abandonar todo o resto.


15. Ele poderá dormir nas areias da margem de um rio ou do lado de fora de um templo. Ele não deve ocupar muito seu corpo nem com prazeres nem com dor.


16. A água pura deve ser usada para banhar-se, beber e para a limpeza. Ele não deve se agradar com o elogio, nem amaldiçoar os outros quando for censurado.


17. Sua tigela de esmolas deve ser feita com folhas, e o material para lavá-la deve ser o prescrito (terra fresca).


18. Tendo assim os meios de sua sobrevivência, ele deve, com os sentidos controlados, pronunciar os mantras filosóficos. O sábio (o asceta) deve perceber com sua mente a identidade do eu individual [Atma] com o Eu universal [Paramatma], que é o significado de Om.


19. De Brahman surgiu o éter, do éter o ar, do ar o fogo, do fogo a água, da água a terra. Em tais elementos primários (causa primária de tudo), o Brahman, eu tomo refúgio em reverência; eu tomo refúgio no Brahman eterno, imortal e indestrutível.


20. Em mim, o oceano de pura felicidade, muitas vezes surgem e caem ondas do universo devido aos ventos dos jogos [Lila] fantasiosos da ilusão (Maya).


21. Não estou apegado ao meu corpo, assim como o céu não está apegado às nuvens. Deste modo, como posso eu ter as características dele (o corpo) durante os estágios de vigília, sonho e sono profundo?


22. Estou sempre muito além da imaginação, como o éter; sou diferente dele (o corpo), assim como o sol é dos objetos de iluminação; eu sou o para sempre sem-mudanças, assim como o imutável (i.e. o Monte Meru) e, como o oceano, eu sou ilimitado.


23. Eu sou Narayana, eu sou o destruidor do demônio Naraka, eu sou Shiva, o destruidor das três cidades etéreas, eu sou o Purusha [o espírito], eu sou o Senhor supremo, eu sou a consciência indivisa, a testemunha de tudo, eu não tenho um superior, sou desprovido de “eu” (egoísmo) e “meu” (possessividade).


24-25. O asceta deve, pela prática da Yoga, juntar os ares vitais Prana e o Apana no corpo. Ele deve colocar as palmas das duas mãos no períneo, delicadamente morder a ponta da língua colocada para fora até à distância de um grão de cevada. Do mesmo modo, direcionando os olhos abertos à distância de uma semente de vigna-mungo [um tipo de feijão], em direção ao ar do ouvido e com os pés repousando firmes no chão, ele não deve deixar o ouvido ouvir, nem o nariz cheirar (os cinco sentidos devem ser controlados). Desse modo, ele atinge a união dos ares vitais Prana e Apana.


26. Portanto, o ar vital que passa pela Kundalini e o [canal] sushumna se dissolvem no chakra Sahasrara no topo da cabeça. Depois, a visão, a mente, o ar vital e o [elemento] fogo do corpo chegam ao local de Shiva e se dissolvem. Isso é Brahman, isso é o Brahman transcendente. Tal Brahman será realizado pela prática da Yoga, que é facilitada pela aquisição da prática em vidas anteriores.


27. Com a ajuda dos órgãos externos e internos, o conhecimento do Brahman qualificado, chamado de refulgência, ao chegar ao coração e apoiado pela capacidade do ar vital de subir, atravessa pelo canal sushumna, e ao perfurar o crânio, bem no topo da cabeça, percebe-se o indestrutível Brahman qualificado.


28. Tais sábios que atingem o estado transcendente através de passagem no crânio no topo da cabeça nunca retornam à vida terrena porque percebem o mais baixo e o mais elevado Brahman.


29. Os atributos dos objetos vistos não afetam o espectador, que é diferente deles. Os atributos de um chefe de família não afetam aquele que permanece não alinhado a qualquer modificação mental, tal qual uma lamparina que não sofre mudanças pelos objetos revelados por ela.


30. Que eu, o sábio não alinhado, role na água ou no chão; eu sou intocado pelas características, assim como o éter (o ar) no jarro não é afetado pelos atributos do jarro.


31-32. Eu sou livre do efeito das atividades e das mudanças, desprovido de partes e formas, eu sou sem desejos, eu sou eterno, eu permaneço sem suportes e sou desprovido de dualidade. Eu sou a forma de todos os seres, eu sou o todo, estou além de tudo e sem um segundo. Eu sou o conhecimento indivisível e eu sou a bem-aventurança compacta do Eu. 


33.  Andando, de pé, sentado, deitado ou de outro modo, o sábio, deleitando-se no Atma, viverá como desejar (cumprindo seus deveres), e ao deixar o mundo, alcançará a liberação. Assim termina o Upanishad. 


Om! Que todos os meus membros e fala, Prana, olhos, ouvidos, vitalidade e todos os sentidos cresçam com força.

Toda a existência é o Brahman dos Upanishads.

Que eu nunca negue Brahman, nem que Brahman negue a mim.

Que não exista qualquer negação,

Que não exista qualquer negação pelo menos vinda de mim.

Que as virtudes proclamadas nos Upanishads estejam comigo,

Que sou devotado ao Atma; que tais virtudes residam em mim.

Om! Que haja paz em mim!

Que haja paz no ambiente!

Que haja paz nas forças que agem sobre mim!


Aqui termina o Kundika Upanishad, como incluído no Sama Veda.


º º º

Traduzido para o inglês por Prof. A. A. Ramanathan

Traduzido para o português por Mariângela Carvalho

Publicado pela Theosophical Publishing House, Chennai


[N. do T.: na tradução, foram preservados os parênteses do original. As informações em colchetes são adendos do tradutor.]

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