Sunday, February 23, 2025

Desvendando o Místico Ponto Entre As Sobrancelhas - Parte 2

 


[Continuação]

Mandala Brahmana Upanishad

2. O corpo tem cinco manchas: paixão, raiva, expiração, medo e sono. A remoção destas pode ser afetada respectivamente pela ausência de sankalpa [intenção], perdão, alimentação moderada, cuidado e uma visão espiritual dos tattvas [princípios cósmicos]. Para cruzar o oceano de samsara, onde o sono e o medo são as serpentes, a injúria e outras emoções correlatas são as ondas, trishna (sede) é o redemoinho e a esposa é a lama, deve-se aderir ao caminho sutil e ultrapassar tattvas e outros gunas para buscar por taraka. Taraka é Brahman, que, estando no meio das duas sobrancelhas, é da natureza da refulgência espiritual de Sat Chit Ananda. 


3. Saiba que o Yoga é duplo através de sua divisão em purva (anterior) e uttara (posterior). O anterior é Taraka e o posterior é Amanaska (o sem mente). Taraka é dividido em murti (com limitação) e amurti (sem limitação). O Murti Taraka vai até o fim dos sentidos (ou existe até os sentidos serem conquistados). O Amurti Taraka vai além das duas sobrancelhas (acima dos sentidos). Ambos devem ser realizados através da mente. Antar-drishti (visão interna) associada com manas vêm para ajudar Taraka. Tejas (luz espiritual) aparece no buraco entre as duas sobrancelhas. Este Taraka é o anterior. O posterior é amanaska. A grande jyoti (luz espiritual) está acima da raiz do palato. Ao vê-la, obtém-se os oito siddhis. Sambhavi-mudra ocorre quando lakshya (visão espiritual) é interna, enquanto os olhos (físicos) estão vendo externamente sem piscar. Esta é a grande ciência que está oculta em todos os Tantras. Quando isso é conhecido, não se permanece em samsara. Sua adoração (ou prática) traz a salvação. 


Sandilya Upanishad


9. O Siddha [o praticante que possui siddhis] deve sentar-se confortavelmente com o corpo ereto, pressionar o períneo com o calcanhar esquerdo e colocar o calcanhar do pé direito acima do órgão genital, concentrando a mente entre as duas sobrancelhas.


16. Ao ter a exposição da Vedanta, deve-se começar a praticar Yoga. No começo, faça adoração a Vinayaka (Ganesha), saúde seu Ishta-Devata (divindade escolhida) e sente-se em qualquer uma das posturas acima mencionadas em um assento macio, voltado para o leste ou o norte e, tendo praticado-as com êxito, o homem erudito, mantendo sua cabeça e pescoço eretos e fixando seu olhar na ponta do nariz, deve ver a esfera da lua entre suas sobrancelhas e beber o néctar (fluindo dela através de seus olhos).


48-50. Quando a consciência (samvit) é fundida em prana e quando, através da prática o prana passa pelo buraco superior para o dvadasanta (o décimo segundo centro) acima do palato, então as flutuações de prana são interrompidas. Quando o olho da consciência (ou seja, o espiritual ou terceiro olho) se torna calmo e claro de modo a ser capaz de ver distintamente no akasa transparente, a uma distância de doze dígitos da ponta do nariz, então as flutuações de prana são interrompidas. Quando os pensamentos que surgem na mente são vinculados à contemplação calma do mundo de taraka (estrela ou olho) entre as sobrancelhas e são (assim) destruídos, então as flutuações cessam.


60-61. Quando a língua tiver sido alongada até o comprimento de um kala (dígito) através da incisão do frênulo, esfregando e umedecendo-o (ou seja, a língua), fixe o olhar entre as duas sobrancelhas e feche o buraco do crânio [a cavidade nasal] com a língua invertida. Este é Khechari-mudra. A língua e chitta (mente) se movem no akasa (khechari), então a pessoa com sua língua levantada se torna imortal. 


Yoga Kundalini Upanishad


Capítulo 1


7. Shakti é Kundalini. Um homem sábio deve levá-la de sua morada (ou seja, o umbigo) para cima até o meio das sobrancelhas. Isso é chamado Sakti-Chala.


68-69(a). Então, ela sobe imediatamente através de Vishnugranthi [o “nó de Vishnu”, que é uma obstrução de energia no caminho percorrido pela kundalini; encontra-se na região do chakra cardíaco e impede o avanço da devoção e amor incondicionais] até o coração. Ela então sobe através de Rudragranthi [o “nó de Rudra”, outra obstrução, ou nó, que a kundalini deve superar em seu caminho do umbigo até a cabeça; este nó compromete a elevação espiritual; está localizado na região do chakra ajna]  e acima dele até o meio das sobrancelhas; tendo perfurado este lugar, ela sobe até a mandala (esfera) da lua.


Saubhagya Lakshmi Upanishad


III-9: A nona é a roda do espaço. Há o lótus com dezesseis pétalas, voltado para cima. Seu pericarpo no meio tem o formato dos "picos ondulados" (o centro das sobrancelhas). Em seu centro, deve-se meditar sobre o poder ascendente, o vazio supremo. De fato, este é o assento do "monte completo", o instrumento de realização de todos os desejos.

Monday, February 17, 2025

Sri Ramakrishna - Instrutor do Mundo

 


Mais um aniversário de Sri Ramakrishna é comemorado neste 18 de fevereiro. O advento de Thakur só pode ser explicado através da Graça Divina, que fez descer à Terra mais um jagat guru, o instrutor do mundo, epíteto dado a Ramakrishna e também a Krishna. Krishna instrui os homens através de Seus passatempos no campo de batalha e no campo do amor supremo, e Ramakrishna instrui como se chega a Krishna e como se tornar um com Ele. Sri Ramakrishna, chamado de “o louco de Deus”, afirmou aquilo que apenas um avatar poderia: que Deus é tanto pessoal quanto impessoal, tanto Brahman quanto Sua energia, tanto o espírito quanto a matéria - uma sanidade capaz de abalar muitas mentes daquela época e do contemporâneo. Uma instrução primordial que Ele deixou foi: “Tudo isso [referindo-Se às conversas filosóficas] não leva a nada. Apenas Deus pode dizer o que Ele é”, afinal, apesar dos constantes debates entre os distintos ramos da Vedanta, no fim, apenas o próprio Deus poderia concluir quem ou o que Ele realmente é, se com forma ou sem forma, se dualista ou monista, se é pai ou se é mãe. Sri Ramakrishna é o paradoxo de um pandit quase iletrado, tudo que sabe vem de dentro, não é livresco, é real, dotado com uma força e conhecimento inatos, uma renúncia sem igual, um verdadeiro Paramahamsa. Sri Ramakrishna instruiu discípulos monásticos, chefes de família e muitas mulheres. Sua adoração à Mãe Divina colocava a energia feminina de Deus em primeiro plano, assim Ele instruiu para que o aspecto Shakti de Deus fosse adorado e levado em consideração. Para praticarem o amor à Mãe Divina, Ele trouxe Sri Sarada Devi, a personificação de Shakti, para perto dos devotos de então e para outros inúmeros que tomaram refúgio aos pés Dela futuramente. As instruções Dele ecoam até hoje, 189 anos após Sua vinda, porque com elas é possível decifrar Deus e Seus poderes, Sua ilusão, Seus jogos. O que Ramakrishna deixou ao mundo foram instruções de como se tornar o açúcar, não apenas experimentá-lo, ou: ser como Deus, não apenas idealizá-Lo.

Wednesday, February 12, 2025

Desvendando O Místico Ponto Entre As Sobrancelhas - Parte 1

 


O ponto entre as sobrancelhas é um lugar místico para os yogues e sábios, indo além das tradições hindus e budistas para ser um ensinamento também no taoismo e cristianismo. Este ponto é uma intersecção entre mundo material e mundo espiritual, e dotado de imensa força psíquica. Há diversas meditações prescritas focando neste ponto e preceitos que instruem este ponto em específico como um dos focos do praticante - além do ponto de concentração no coração. 


Localizado entre as sobrancelhas, este ponto místico é reconhecido como uma porta entreaberta para a consciência plena e elevada, sendo que abrir completamente tal porta depende da prática de purificação do aspirante. Este ponto marca o centro do encontro entre uma linha horizontal (que simboliza o mundo físico) e uma vertical (que simboliza o divino). Tal intersecção é fonte de expansão psíquica e introspecção.


A este ponto são atribuídas denominações como chakra ajna, terceiro olho e/ou glândula pineal, mas independente de se tentar categorizar este ponto de energia, ele é um centro para a força da intuição, da inspiração e das sugestão espirituais (no sentido mediúnico do termo). 


Muito tratado como o “olho espiritual”, este ponto é mencionado no Evangelho de Mateus, quando é dito: “A luz do corpo é o olho. Se, portanto, seu olho for bom, todo o seu corpo se encherá de luz”, o que tutela este ponto como a residência da chispa divina, o “local” onde nosso espírito “reside” no corpo. Este ponto deve ser meditado e é indicado por tradições taoistas como o melhor ponto para que o espírito deixe o corpo no momento da morte. Para eles, há vários pontos por onde o espírito deixa o corpo quando este morre, dentre eles estão os olhos, ouvidos, boca, nariz, moleira e órgãos genitais, além do ponto entre as sobrancelhas, indicado como “a melhor saída do espírito”.


Nos hinduísmos (o que agrega todas as denominações, como shaktas, shaivas, vaishnavas, etc.), a região do ponto está sempre belamente adornada com joias, bindhis, kumkum, tilaka e demais adereços. É neste ponto que devemos focar (além do coração) quando fazemos reverências tocando a cabeça no chão diante das deidades. 


Há inúmeras passagens nos Upanishads que referenciam este ponto como uma chave na vida e na sadhana do aspirante, dada a importância de que o praticante “descubra” a função deste ponto em sua purificação espiritual. 


º º º

Nada Bindu Upanishad

4. Em seu coração [do aspirante], está situado Janoloka [dimensão do conhecimento]; Tapoloka em sua garganta [dimensão da austeridade, meditação e presença divina]; e Satyaloka [ou Brahmaloka, dimensão de Brahma, o criador] no centro da testa, entre as sobrancelhas. 


Dhyana Bindu Upanishad

32-34(a). Então, através da expiração, deve-se meditar sobre o Shiva de três olhos entre as duas sobrancelhas, brilhando como um cristal puro, imaculado, destruindo todos os pecados, sendo como um lótus voltado para baixo, com sua flor (ou face) para baixo e o caule para cima, ou como a flor de uma bananeira, sendo da forma de todos os Vedas, contendo cem pétalas e cem folhas e tendo o pericarpo totalmente expandido.


39. Tendo feito a posição de lótus da forma de Ardha-Matra [o estado espiritual mais elevado, sem qualidades] deve-se puxar a respiração através do caule (dos canais susumna, ida e pingala) e absorvê-la no meio das sobrancelhas.


40. Ele [o praticante] deve saber que o meio das sobrancelhas na testa, que também é a raiz do nariz, é a sede do néctar. Essa é a grande morada de Brahman.


Yoga Tattva Upanishad

24(b)-25. Agora ouça sobre Hatha Yoga. É dito que esta Yoga possui os seguintes oito preceitos: yama (tolerância), niyama (observância religiosa), asana (postura), pranayama (supressão da respiração), pratyahara (subjugação dos sentidos), dharana (concentração), dhyana, a meditação e contemplação em Hari no meio das sobrancelhas, e samadhi, que é o estado de igualdade.


94(b)-96. Do coração até o meio das sobrancelhas é conhecido como a região de vayu [o elemento ar]. Vayu tem formato hexagonal, cor preta e brilha com a letra “ya”. Levando a respiração ao longo da região de vayu, deve-se contemplar Ishvara, o Onisciente, como possuindo faces em todos os lados; e praticando Dharana ali por duas horas, entra-se em vayu e então em akasha [o elemento espaço].


97-98(a). O Yogi não encontra sua morte por medo de vayu. Do centro das sobrancelhas até o topo da cabeça é dito ser a região de akasha, que é circular no formato, tem cor esfumaçada e brilha com a letra “ha”.


117(b)-118(a). Com a língua enfiada na cavidade interna da cabeça (ou garganta) e com os olhos fixos no ponto entre as sobrancelhas, isso é chamado Khechari-Mudra.


Yoga Chudamani

82. O Hamsa Mantra (mantra do cisne) brilha no entremeio dos dois olhos; a letra “sa” [em hamsa] é conhecida como kechari, que significa “aquilo que viaja pelo céu”. É consentido que “sa” equivale à palavra “tvam” (tu) no famoso dizer védico “Tat Tvam Assi”, “você é Aquilo”.


Tripura Tapini Upanishad

1.1: Agora, nesta esfera de ignorância, o Senhor Sadashiva, assumindo os disfarces de Prajapati, Vishnu e Rudra, vem a ser denominado Deusa Tripura. Por Seu Poder primordial são moldadas as três moradas – a terra, a atmosfera e os céus, ou os céus, a terra e o mundo inferior. Na forma da sílaba-semente “hrim”, idêntica à ilusão de Hara [Shiva], a divina Hrillekha permeia, com Seu terrível poder, o cume dos três picos, acima da junção das duas sobrancelhas, o assento de equilíbrio dos três gunas, e a região onde o mundo dos objetos é dissolvido. Esta mesma divindade é chamada Tripura.


[Continua]

Sunday, February 9, 2025

Bhaja Govinda: Willow Smith


Alçada à fama com a epítome pop de “Whip my hair” aos 9 anos, Willow Smith tem muito mais a oferecer musicalmente do que hits comerciais. A cantora (e também atriz e musicista) é devota convicta de Krishna, seguidora da ISKCON e não esconde sua inclinação espiritual vaishnava, trazendo temas da Consciência de Krishna para seu repertório e ostentando símbolos devocionais, como a tilaka, como seu adereço mais marcante esteticamente.

No recente pocket show que fez no Tiny Desk da NPR, Willow deixa clara sua devoção a Krishna não somente por estar adornada com a tilaka, mas principalmente porque sua voz emana uma certa bem-aventurança que os devotados desenvolvem e demonstram naturalmente. 



Um repertório que abrange músicas de sucesso, como “Wait a minute!”, e novas (até então) - que integram seu álbum de 2024, o sexto de carreira, Empathogen -, como “Big Feelings”, a apresentação é carregada de bhava (emoção espiritual) e rasa (de sabor doce). Dotada de uma voz macia e forte, Willow brinca com diferentes timbres vocais enquanto conduz as melodias que vão do alt-jazz e art-pop ao R’n’B e soul.


Seus laços com a Consciência de Krishna permeiam toda sua discografia, a exemplo de composições como “And Contentment”, “Female Energy”, “Transparent Soul”, “Hover like a Goddess”, “False Self” e outros temas, além de lançamentos especiais como ao lado de Jahnavi Harrison (que não tem qualquer parentesco com George Harrison), com quem lançou o EP Rise, inspirado por kirtans, mantras e bhakti-yoga. 




Wednesday, January 29, 2025

Yoga Chudamani Upanishad

 


Este Upanishad sobre a Joia Suprema da Yoga ressalta algumas práticas para o aspirante atingir os frutos de yug, a união com o Supremo, como as práticas de contemplação do Hamsa Mantra e Pranayama. Na tradução para o inglês de P.R. Ramachander há muitos versos indisponíveis, mas é possível ler o Upanishad na íntegra na versão (em inglês) de Swami Satyadharma.


Baixe em PDF: Academia.edu.


º º º

Om! Que meus membros e minha fala, o prana, os olhos, ouvidos, a vitalidade

E todos os sentidos tornem-se fortes. 

Toda a existência é o Brahman dos Upanishads.

Que eu nunca renegue Brahman, nem que Brahman renegue e mim.

Que não haja negação alguma.

Que não haja negação alguma vinda de mim.

Que as virtudes proclamadas nos Upanishad estejam em mim,

Que sou devotado ao Atma. 

Que elas estejam comigo.

Om! Que haja Paz em mim!

Que haja Paz no ambiente!

Que haja Paz nas forças que agem sobre mim! 

1. Eu narrarei o Yoga Chudamani Upanishad com a intenção de fazer bem aos yogues. Este Upanishad é muito apreciado pelos mais antigos conhecedores da Yoga. Ele é secreto e capaz de conceder a salvação.

(Versos 2-29 estão indisponíveis)

30. A Jivatma (a alma do indivíduo físico) está sob controle do prana, que sobe e desce, assim como de apana [outro tipo de ar vital]. O apana atrai o prana, o prana atrai o apana. Aquele que conhece e percebe esta atração mútua, que se move para cima e para baixo, compreende Yoga.

31. Este movimento [da respiração] vai para fora com o som de “ha” e volta para dentro com o som de “sa”. Os seres vivos entoam este mantra como “Hamsa, hamsa”.

32. Os seres estão sempre entoando este mantra, dia e noite, 21.600 vezes por dia.

33. Este mantra, chamado Ajapa Gayatri, traz a salvação para todos os yogues. Apenas um pensamento sobre este mantra já ajuda a livrar-se de todos os pecados.

34. Não há prática tão sagrada quanto esta, nenhuma entoação se equivale a esta, nenhuma sabedoria é equivalente, e, no futuro, é improvável que haja outra.

35. O Ajapa Gayatri que ascende da kundalini sustenta a alma. Esta é a maior dentre as ciências da alma. Quem souber disso, conhecerá os Vedas. 

36. O poder da kundalini está acima do muladhara em sua forma com oito pétalas [costumeiramente, o muladhara contém quatro pétalas; com oito pétalas, é sua versão transcendental] e está sempre cobrindo a boca de sushumna [o canal de energia mais importante que conecta os chakras], que é o portão de Brahman. 

37. É a Kundalini Parameshwari (a Deusa do Universo) que atravessa o portão de Brahman, fecha o portão com a boca e adormece.

38. Devido ao calor gerado pela prática da yoga, devido à velocidade do ar vital e devido ao poder mental dela, ela se levanta e, usando seu corpo em formato de agulha, sobe atravessando o canal sushumna. 

39. Assim como as portas de uma casa se abrem ao usar uma chave, o yogi deve abrir o portão da salvação usando a Kundalini. 

(Versos 40-71 estão indisponíveis)

72.1. Parabrahman é Om, é aquilo que existe, que é limpo, pleno de sabedoria, que não possui desvantagens, que é imaculado, indescritível, que não possui começo ou fim, que é um e apenas um, que é turiya, que existe em coisas do passado, do presente e do futuro, e que jamais será dividido. A partir deste Parabrahman emerge Parashakti, o aspecto feminino. Ela é a alma autorresplandecente. A partir desta alma surge o éter. Do éter surge o vento. Do vento surge o fogo. Do fogo surge a água, e da água, a terra. Estes cinco elementos são governados pelos cinco deuses: Sadashiva, Ishwara, Rudra, Vishnu e Brahma. Dentre eles, Brahma, Vishnu e Rudra fazem o trabalho da criação, manutenção e destruição, respectivamente. Brahma é rajásico, Vishnu é sátvico e Rudra é tamásico. Eles têm três propriedades distintas.

72.2. Dentre os deuses, Brahma foi o que primeiro surgiu. Dentre os que surgiram primeiro, Brahma se tornou o criador, Vishnu o mantenedor e Rudra o destruidor. De Brahma surgiram os mundos, os deuses, os homens e tudo aquilo entre eles. Dele nasceram coisas que não se movem. No caso do homem, o corpo é a forma unificada dos pancha bhutas (os cinco elementos). Os órgãos de conhecimento (jnanendriyas), os órgãos de ação (karmendriyas), as atividades relacionadas ao conhecimento e os cinco ares do corpo (prana, apana, etc.) estão na porção micro da mente; o intelecto, o poder de decisão e o sentimento de eu estão na porção macro e são chamados de sthula. Os órgãos de conhecimento, de ação, os cinco ares do corpo e o aspecto micro da mente e do intelecto são chamados de linga. O corpo tem três tipos de propriedades. Por isso, todos possuem três corpos. 

Há quatro estados do corpo: estado de vigília, sonho, sono e turiya (estado espiritual exaltado). Os Purushas [Mestres] que habitam em nosso corpo e que controlam esses estados são Viswa [o mestre do consciente; habita a dimensão física], Thaijasa [o mestre do subconsciente; habita a dimensão sutil], Prajna [o mestre do inconsciente; habita a dimensão da bem-aventurança (ananda)] e Atma [sarvasakshi, a testemunha de todos os estados simultaneamente e além deles]. Viswa detém as experiências macro. Diferente dele, Thaijasa detém as experiências micro. Prajna detém as experiências prazerosas. Atma é a testemunha de todos eles. 

73. O Atma, cuja forma é a de “Om”, está em todos os seres. 

74. Nas três letras, A, U e M, três Vedas, três mundos, três características, três letras e três sons brilham. Deste modo, Pranava [Om] brilha. Quando despertos, a letra A existe nos olhos de todos os seres; quando sonham, a letra U existe no pescoço [e garganta] de todos os seres; e a letra M existe no coração de todos os seres quando eles adormecem. 

75-78. A letra A existe em estado embrionário como Viswa, e no estado de pinda como Virat Purusha. A letra U existe como Thaijasa e Hiranyagarbha no estado micro. A letra M existe como estado causal e como Prajna. A letra A possui qualidades rajásicas, é vermelha e sua forma é a mesma do Senhor Brahma. A letra U possui qualidades sátvicas e sua forma é como a do Vishnu branco. A letra M possui qualidades tamásicas e sua forma é como a do Rudra negro. Brahma nasceu de Pranava. Vishnu também surgiu a partir dele, assim como Rudra. Pranava é o Parabrahman (Deus Supremo). Brahma se funde à letra A, Vishnu se funde à letra U e Rudra se funde à letra M. Em pessoas com sabedoria, Pranava está disposto para cima e entre os ignorantes está disposto para baixo. 

79. Pranava existe desta maneira. Aquele que sabe disso, conhece os Vedas. Na forma do som anahatha [o som do cosmos que é “ouvido” pelo chakra cardíaco], o Pranava se desenvolve verticalmente no caso das pessoas sábias.

80. O som de Pranava é contínuo como o fluxo do óleo e é longo como o som de um sino. Seu pico é Brahman.

81. Este pico se ilumina de maneira tão brilhante que não pode ser descrito com palavras. Os grandes sábios descobrem isso usando o intelecto afiado. Aquele que sabe disso é considerado como um conhecedor dos Vedas.

82. O Hamsa Mantra (mantra do cisne) brilha no entremeio dos dois olhos; a letra “sa” [em hamsa] é conhecida como kechari, que significa “aquilo que viaja pelo céu”. É consentido que “sa” equivale à palavra “tvam” (tu) no famoso dizer védico “Tat Tvam Assi”, “você é Aquilo”.

83. É consentido que a letra “ha”, que é o Senhor de todo o universo, é a palavra “tat” (“aquilo”), no dizer mencionado anteriormente. Temos que meditar que a letra “sa” é a alma viajando entre nascimento e morte, e a letra “ha” é o Deus estável.

84. A entidade viva está presa a seus órgãos, mas Paramatma não. A entidade viva é egoísta, mas a alma não está presa pelo egoísmo e é independente.

85. A luz etérea que é Om é também o Atma, em cujos aspectos surgem os três mundos: Bhu [plano terreno], Bhuva [plano intermediário] e Svah [plano celestial]. É também onde residem os três deuses das luzes: Agni (fogo), Soma (lua) e Surya (sol) [que residem nas três letras respectivamente].

86. A luz etérea que é o Om é também o Atma, em cujos aspectos surgem a “ação”, que é o poder de Brahma, a “vontade”, que é o poder de Rudra, e o “conhecimento”, que é o poder de Vishnu. 

87. Porque o Om é a luz etérea, ele deve ser pronunciado com palavras, praticado com o corpo e meditado com a mente. 

88. Aquele que recita Pranava, esteja ele limpo ou sujo, não ficará preso aos pecados que comete, como a folha de lótus que nunca se molha.

(Versos 89-102 estão indisponíveis)

103. Doze repetições de Om, que são chamadas de puraka, seguidas por dezesseis repetições de Om, que são chamadas de kumbhaka, e depois dez repetições de Om, que são chamadas de rechaka, é chamado de Pranayama.

104. A regra básica para fazer Pranayama é de, no mínimo, doze vezes, o que é considerado pouco; duas vezes essa quantidade (24) é considerada média; três vezes (36) é considerada uthama, a melhor.

105. No nível mais baixo, surge o suor; no nível médio, tremores; em uthama, a obtenção do objetivo. Após isso, surge o controle da respiração.

106. O Yogi deve, primeiramente, saudar seu Guru e o Senhor Shiva, e sentar-se na posição de lótus, concentrar a visão na ponta do nariz e praticar pranayama sozinho.

(Versos 107-108 estão indisponíveis)

109. Através da posição (de lótus), evitam-se as doenças; através de pranayama, evitam-se os pecados; através de pratyahara [retenção dos sentidos], controla-se a atividade mental.

110. Através da fé, a mente se fortalece e o Samadhi concede um conhecimento maravilhoso à entidade viva, e ela atinge a salvação, após serem destruídas as ações sagradas e as pecaminosas.

(Versos 111-112 estão indisponíveis)

113. Após [o yogi] ver o Paramjyothi [a luz de Parabrahman], que se espalha por toda parte, em Samadhi, os deveres e ações não permanecem nem passam.

(Versos 114-115 estão indisponíveis)

116. Se permanecermos firmes em pranayama, todas as doenças serão destruídas. As doenças se manifestam apenas para aqueles que são incapazes de fazer pranayama. 

(Versos 117-119 estão indisponíveis)

120. Pratyahara é o estado onde os órgãos dos sentidos, como os olhos, não se envolvem com os objetos externos, mas voltam-se para dentro de si mesmos. 

121. Assim como o sol retrai seus raios no terceiro período do crepúsculo [quando restam os últimos raios do sol], o yogi que está no terceiro estado [uthama] controla sua mente. 

Om! Que meus membros e minha fala, o prana, os olhos, ouvidos, a vitalidade

E todos os sentidos tornem-se fortes. 

Toda a existência é o Brahman dos Upanishads.

Que eu nunca renegue Brahman, nem que Brahman renegue e mim.

Que não haja negação alguma.

Que não haja negação alguma vinda de mim.

Que as virtudes proclamadas nos Upanishad estejam em mim,

Que sou devotado ao Atma. 

Que elas estejam comigo.

Om! Que haja Paz em mim!

Que haja Paz no ambiente!

Que haja Paz nas forças que agem sobre mim! 

Aqui termina o Yoga Chudamani Upanishad, como contido no Sama Veda. 

º º º

Traduzido para o inglês por P. R. Ramachander

Traduzido para o Português por Mariângela Carvalho

[N. do T.: As informações em colchetes são adendos do tradutor.]


Tuesday, January 21, 2025

As flores são o sorriso de Krishna

 


Uma vez, ouvi do Swami Chandramukha que as flores são o sorriso de Krishna. Nunca esqueci dessas palavras. As flores desabrocham quando o Senhor abre Seu sorriso divino, além de serem uma das expressões mais belas da criação de Deus.


Prabhupada contou que quando vemos uma flor, estamos vendo o sorriso de Krishna, por isso, devemos utilizá-las em Seu serviço, uma vez que tudo é a energia Dele. “Uma flor que sentimos o perfume, que adoramos. Isso é gratificação dos sentidos. Igualmente, a mesma flor, se oferecida a Krishna em uma guirlanda, com a qual Ele sentirá o perfume e sentirá prazer, é bhakti”, disse Shrila em uma de suas conversas. 


A literatura vaishnava frequentemente descreve Krishna como sorridente e risonho. Aquele Seu sorriso de Gopala, que tanto enfeitiçou os moradores de Gokul por Sua graça de criança, é o mesmo que encorajou Arjuna quando este se encontrava prestes a desistir da guerra no campo de Kurukshetra. No Gita 2:10-12, temos: “Naquele momento, Krishna, no meio dos dois exércitos, sorriu e disse as seguintes palavras ao desconsolado Arjuna: ‘Ao falar palavras cultas, você está lamentando pelo que não é digno de pesar. Sábios são aqueles que não se lamentam nem pelos vivos nem pelos mortos. Nunca houve um tempo em que Eu não existisse, nem você, nem todos esses reis; e no futuro nenhum de nós deixará de existir’”. Este trecho, muito comentado pelos acharyas, enfatiza que foi a partir do sorriso de Krishna que Arjuna se assegurou de que a guerra seria por um bem maior.




No Srimad Bhagavatam 2.1.31, o sorriso de flores de Krishna é retratado como “a energia material ilusória mais atraente”. É explicado que, no mundo espiritual, o sorriso de Krishna é a energia mais cativante, mas quando essa energia é refletida no mundo material, ela inverte e se torna maya, a energia que prende as entidades vivas à ilusão e à luxúria. Ainda no Bhagavatam (3.28.32), é dito: “Um iogue deve meditar no mais benevolente sorriso do Senhor Hari, um sorriso que, para todos aqueles que se curvam a Ele, enxuga o oceano de lágrimas causadas por intensa tristeza”. Em outro momento (3.8.27), é dito que os devotos não pedem nada ao Senhor em troca pelo serviço devocional a Ele. Até mesmo a mais alta liberação é recusada pelos devotos, embora seja oferecida pelo Senhor. Dessa maneira, o Senhor torna-Se um “devedor” do devoto e a única maneira de “pagar” pelos serviços devocionais é oferecendo Seu encantador sorriso. 



Embora existam milhares de nomes dados a Deus, destacam-se dois em especial que relacionam a beleza das flores ao fascinante sorriso de Krishna. O primeiro é a alcunha Mukunda, formada pelas palavras mukha (face) e kunda (a flor chamada jasmim-estrela), sendo assim conhecido como “Aquele cuja face é tão bela quanto a sempre sorridente flor de jasmim-estrela”. No Vishnu Sahasranama (Mil Nomes de Vishnu), o título nº 952 é Puspa Hasa, ou “aquele cuja manifestação como Universo se assemelha ao desabrochar de botões em flores” e “aquele que desabrocha como uma flor no momento da criação primordial”.


A energia do sorriso de flores de Krishna emana para e através do devoto, e faz com que o sorriso deste se torne poderoso. Prabhupada afirma que simplesmente ao sorrir, o devoto conquista muitos discípulos, admiradores e seguidores. 


Lembre-se sempre que vir uma flor: ali está o sorriso de Deus. 

Saturday, January 18, 2025

Swami Vivekananda Jayanti

 

Altar para o Puja de Swami Vivekananda em São Paulo, 2025

No domingo, amanhã, 19 de janeiro de 2025, será comemorado o jayanti de Swami Vivekananda em Ashramas do Brasil e de todo o planeta. Marcando os 162 anos de seu nascimento, é sempre bom lembrar que Vivekananda teve uma vida brevíssima, estando materialmente no mundo por apenas 39 anos. A força de sua vida e obra é tamanha que sua relevância é influente até hoje. Os ideias deixados por ele ultrapassaram sua mensagem religiosa - ainda que esta seja sua maior eloquência - para gerar comoção social e cultural nos Estados Unidos e Europa, e sócio-política na Índia. Sempre à frente de seu tempo, ele inspirou uma mudança no pensamento indiano: o de que a opressão do povo indiano não estava apenas atrelado à opressão do império britânico, mas sim à uma servidão mental, sem Deus e sem a consciência de Atma. Tal visão de Swamiji sobre a servidão mental foi força-motriz para a independência da Índia e o surgimento de movimentos como o Swadeshi e figuras como Mahatma Gandhi e Subhas Chandra Bose. 

Foi Vivekananda também que teve o olhar sobre o iminente poder feminino, a própria Shakti Divina, que se erguia no mundo na virada dos séculos XIX-XX, adiantando uma tendência que mexeu com o status quo ao longo dos séculos XX-XXI: o feminismo e o empoderamento feminino. É claro que Vivekananda não adiantou tais ideias da maneira como as conhecemos hoje, mas foi um dos precursores ao perceber que a mulher deveria receber mais educação e adquirir independência/autonomia - daí a fundação da Escola de Nivedita. Esta proposta que Swamiji via como uma chave para transformar a sociedade indiana - e mundial - estava intimamente ligada à presença da Santa Mãe Sarada Devi, Ela mesma a personificação de Shakti, uma vez que foi a Mãe e Seu imenso poder feminino (o de criar) que colocaram a Ordem Ramakrishna em movimento, e foi com as bênçãos Dela que ele partiu para o mundo para falar sobre Deus, a Vedanta, o Atma. É através dessa força divina da Santa Mãe que tudo se fez e prosperou. Vivekananda sempre soube e prezou imensamente por isso; ele sabia que a polaridade masculino-feminino estava mudando para feminino-masculino, e que isso traria alteração significativa para a sociedade no futuro (que é o dia de hoje). 

Este são apenas alguns de muitos exemplos do quanto Vivekananda é visionário e possuidor de uma mensagem-atitude que transforma mentalidades universalmente. Ele é o símbolo da juventude (no dia de seu aniversário propriamente dito, 12 de janeiro, é comemorado o Dia Nacional da Juventude, na Índia) porque suas ideias são frescas, vivas e estão prontas para sacudir o mundo, como manda a insígnia dos sempre jovens.   

Os Últimos Dias de Radhu

Cena que retrata o momento em que Sri Sarada Devi tem uma visão de  Sri Ramakrishna sobre a sobrinha Radhu Este texto curto é um post feito ...