Saturday, March 8, 2025

Franny Glass, a Oração Contínua do Peregrino Russo e o Vedantismo de Salinger

 

Franny Glass - David Richardson


O controverso autor norte-americano J.D. Salinger não foi apenas um doidão recluso que lutava contra a fama e a invasão de sua privacidade. Tocado pelos ensinamentos e pela vida de Sri Ramakrishna e Swami Vivekananda, o escritor foi fisgado pela Vedanta por volta da década de 50 do século passado - ainda antes do lançamento de seu best seller, O Apanhador no Campo de Centeio -, após passar alguns anos estudando Budismo. E foi o conhecimento do monismo e da renúncia que o levou a se “retirar” da sociedade, isolando-se em New Hampshire e deixando as badalações de Nova York, onde nasceu e cresceu, tendo morado muito próximo da Vedanta Society de lá, a mesma fundada por Vivekananda em 1894. Com tal proximidade física, a proximidade psíquica foi rápida e generosa com Salinger, uma vez que foi com a Vedanta e ensinamentos de Ramakrishna que ele se “libertou” da escravidão da fama (e dos frutos dela), da qual nunca fora muito adepto de qualquer maneira. A conexão de Salinger com a Ordem Ramakrishna é notória e inclusive retratada em filmes biográficos recentes, como Rebel in The Rye e Salinger.




A influência do pensamento espiritual asiático nos romances de Salinger é percebida a todo momento em sua escrita. Seus personagens estão sempre às voltas com questões filosóficas sobre Deus, karma, reencarnação e até a necessidade da prática de recitação de mantras, chamado japa. É nesta sadhana, a repetição de mantra, que está fundada uma das estórias de Salinger que mais explicitam a influência do pensamento hindu: o conto sobre a garota Franny Glass, personagem do livro Franny & Zooey, que se vê totalmente cativada pelo livro O Caminho do Peregrino Russo e pela sadhana adotada pelo peregrino, que aprende e ensina como repetir o Santo Nome o tempo todo através do mantra cristão “Senhor Jesus, tende piedade de mim”. Enfeitiçada pelo poder desta oração, Franny, em dado momento da estória, afirma que os relatos das peregrinações são a melhor coisa que ela já leu. A maneira como Salinger conecta o livro russo às inquietudes místicas da jovem Franny é muito singular e dotado de uma visão permeada pelos ensinamentos hindus, como fica claro nesses trechos em que ela explica ao namorado, Lane, o significado da oração constante:


(...)


Franny: - Como eu dizia, o peregrino… o tal camponês simplório… decidira fazer a peregrinação para descobrir o que a Bíblia quer dizer quando afirma que temos a obrigação de rezar o tempo todo. E então encontrou esses estarostes… aquelas pessoas muito sabidas em religião de que já falei e que não faziam outra coisa há anos e mais anos senão estudar a Philokalia. 


(...)


Franny: - O estaroste com quem o peregrino falou referiu-se, antes de mais nada, à Prece de Jesus. Você sabe como é, não? “Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim.” E foi tudo, quer dizer, o estaroste explicou-lhe que essas são as melhores palavras que se pode usar quando se reza. Especialmente a palavra “piedade”, porque é realmente uma grande palavra e pode significar uma porção de coisas. Quer dizer, não significa apenas piedade. 


(...)


Franny: - O estaroste disse ao peregrino que se ele repetisse constantemente essa prece - no princípio, basta apenas murmurá-la, com um movimento imperceptível dos lábios - então, o que acaba ocorrendo é que a prece adquire vida própria. Acontece alguma coisa, não sei o que é, mas acontece. E as palavras ficam sincronizadas com as batidas do coração e é então que uma pessoa se encontra realmente rezando sem parar - quase sem se dar conta -, o que tem um efeito esmagadoramente místico em todas as nossas concepções. E é isso que é o objetivo da coisa: recitamos a prece para purificar as ideias e obter uma concepção inteiramente nova sobre o significado de tudo o que nos cerca. 


(...)


Franny: - Mas o mais maravilhoso de tudo é que, quando se começa, não é preciso sequer ter fé no que estamos fazendo. Mesmo que a gente se sinta terrivelmente confuso com tudo isso, não tem importância nenhuma. Quer dizer, não estamos ofendendo ninguém nem coisa nenhuma. Em outras palavras, ninguém exige que você acredite em coisa alguma quando começa. Nem é preciso pensar sobre o que estamos dizendo, afirmava o estaroste. No princípio, tudo o que é preciso é a quantidade. Então, mais tarde, ela mesma se converte em qualidade. Graças a sua própria energia ou uma coisa assim. Afirmava ele que qualquer dos nomes de Deus… qualquer deles.. possui essa força própria e autogeradora, que é a atividade, e começa agindo assim que nos entregamos à oração.


(...)


Franny: - Na verdade, a coisa faz sentido, porque nas seitas Nembutsu do Budismo, as pessoas dizem repetidamente “Namu Amida Butsu”, o que quer dizer “Louvado seja Buda”, ou coisa parecida… e a mesma coisa acontece. Exatamente a mesma coisa…


(...)


Franny: - A mesma coisa acontece, na Nuvem do Desconhecido. Só com a palavra “Deus”. Basta repetir o tempo todo “Deus”. Ela encarou Lane mais diretamente do que antes. - Você já tinha ouvido falar de coisa mais fascinante em toda sua vida, hein? É muito difícil afirmar que não passa de mera coincidência e ficar por aí… É isso que me parece tão fascinante. Pelo menos, parece-me terrivelmente…..


Interrompeu-se. Lane revolvia-se na cadeira e havia no rosto dele uma expressão, um arquear muito especial das sobrancelhas, que ela conhecia muito bem.


Franny: - O que há?


Lane: - Você realmente acredita em toda essa estória?


Franny estendeu a mão para o maço de cigarros e tirou outro.


Franny: - Eu não disse que acreditava nem que deixava de acreditar, replicou, segurando a caixa de fósforos. Só disse que era um negócio fascinante. 


Lane acendeu-lhe o cigarro.


Franny: - Penso que é uma coincidência muito estranha - teimou ela, soprando para o ar uma baforada do cigarro -, a gente encontrar tantas vezes esse gênero de conselhos. Quer dizer, o conselho dessas pessoas religiosas realmente esclarecidas e sem aquelas palhaçadas que todos nós conhecemos. E, afinal de contas, qual é o conselho? Se repetirmos infatigavelmente o nome de Deus, alguma coisa nos acontece. Até na Índia acontece. Na Índia, eles aconselham que meditemos sobre o “Om”, que quer dizer a mesma coisa, realmente; e exatamente o mesmo resultado tem de acontecer. Por isso é que eu digo que não pode racionalizar a coisa e passar adiante… 


Lane: - Afinal de contas, qual é o resultado?


Franny: - O que?


Lane: - Estou perguntando qual é o resultado que deve supostamente seguir-se. Todo esse negócio de sincronização e de superstição sem pé nem cabeça. Estou vendo que isso não te faz bem ao coração. Não sei se você sabe disso, mas qualquer pessoa pode fazer a si própria uma…


Franny: - Você consegue ver Deus!, cortou Franny. Alguma coisa acontece na parte absolutamente não-física do coração, onde os hindus afirmam que o Atma reside, se é que você entende alguma coisa de religião. E então vemos Deus. É só isso. 


(...)


O impacto do clássico russo na mente de Salinger se deu após o próprio autor começar a praticar sadhanas e entender o poder da repetição de mantras, além de se tornar um assíduo nas aulas e retiros da Vedanta Society. Tendo recebido iniciação de Swami Nikhilananda, Salinger manteve relações muito próximas com as atividades do ashrama nova-iorquino e os ensinamentos que recebeu mudaram sua concepção de mundo.


Por ser um mestre-nato da literatura juvenil, Salinger levou para seus escritos inúmeros insights vedantistas e orientais vividos por jovens personagens complicados, incompreendidos e dotados de certa “loucura divina”, ou, um grande anseio por descobrir o sentido da existência e por compreender o Sagrado.


A questão do Sagrado sustenta todas as obras de Salinger que já foram publicadas e está presente em maior ou menor grau em todas as suas narrativas, dando ao público uma literatura com muitos significados e joias espirituais deixadas subliminarmente nas linhas que compõem suas diversas estórias.   


[Trechos da versão em português de Franny & Zooey, Editora do Autor.]

Sunday, February 23, 2025

Desvendando o Místico Ponto Entre As Sobrancelhas - Parte 2

 


[Continuação]

Mandala Brahmana Upanishad

2. O corpo tem cinco manchas: paixão, raiva, expiração, medo e sono. A remoção destas pode ser afetada respectivamente pela ausência de sankalpa [intenção], perdão, alimentação moderada, cuidado e uma visão espiritual dos tattvas [princípios cósmicos]. Para cruzar o oceano de samsara, onde o sono e o medo são as serpentes, a injúria e outras emoções correlatas são as ondas, trishna (sede) é o redemoinho e a esposa é a lama, deve-se aderir ao caminho sutil e ultrapassar tattvas e outros gunas para buscar por taraka. Taraka é Brahman, que, estando no meio das duas sobrancelhas, é da natureza da refulgência espiritual de Sat Chit Ananda. 


3. Saiba que o Yoga é duplo através de sua divisão em purva (anterior) e uttara (posterior). O anterior é Taraka e o posterior é Amanaska (o sem mente). Taraka é dividido em murti (com limitação) e amurti (sem limitação). O Murti Taraka vai até o fim dos sentidos (ou existe até os sentidos serem conquistados). O Amurti Taraka vai além das duas sobrancelhas (acima dos sentidos). Ambos devem ser realizados através da mente. Antar-drishti (visão interna) associada com manas vêm para ajudar Taraka. Tejas (luz espiritual) aparece no buraco entre as duas sobrancelhas. Este Taraka é o anterior. O posterior é amanaska. A grande jyoti (luz espiritual) está acima da raiz do palato. Ao vê-la, obtém-se os oito siddhis. Sambhavi-mudra ocorre quando lakshya (visão espiritual) é interna, enquanto os olhos (físicos) estão vendo externamente sem piscar. Esta é a grande ciência que está oculta em todos os Tantras. Quando isso é conhecido, não se permanece em samsara. Sua adoração (ou prática) traz a salvação. 


Sandilya Upanishad


9. O Siddha [o praticante que possui siddhis] deve sentar-se confortavelmente com o corpo ereto, pressionar o períneo com o calcanhar esquerdo e colocar o calcanhar do pé direito acima do órgão genital, concentrando a mente entre as duas sobrancelhas.


16. Ao ter a exposição da Vedanta, deve-se começar a praticar Yoga. No começo, faça adoração a Vinayaka (Ganesha), saúde seu Ishta-Devata (divindade escolhida) e sente-se em qualquer uma das posturas acima mencionadas em um assento macio, voltado para o leste ou o norte e, tendo praticado-as com êxito, o homem erudito, mantendo sua cabeça e pescoço eretos e fixando seu olhar na ponta do nariz, deve ver a esfera da lua entre suas sobrancelhas e beber o néctar (fluindo dela através de seus olhos).


48-50. Quando a consciência (samvit) é fundida em prana e quando, através da prática o prana passa pelo buraco superior para o dvadasanta (o décimo segundo centro) acima do palato, então as flutuações de prana são interrompidas. Quando o olho da consciência (ou seja, o espiritual ou terceiro olho) se torna calmo e claro de modo a ser capaz de ver distintamente no akasa transparente, a uma distância de doze dígitos da ponta do nariz, então as flutuações de prana são interrompidas. Quando os pensamentos que surgem na mente são vinculados à contemplação calma do mundo de taraka (estrela ou olho) entre as sobrancelhas e são (assim) destruídos, então as flutuações cessam.


60-61. Quando a língua tiver sido alongada até o comprimento de um kala (dígito) através da incisão do frênulo, esfregando e umedecendo-o (ou seja, a língua), fixe o olhar entre as duas sobrancelhas e feche o buraco do crânio [a cavidade nasal] com a língua invertida. Este é Khechari-mudra. A língua e chitta (mente) se movem no akasa (khechari), então a pessoa com sua língua levantada se torna imortal. 


Yoga Kundalini Upanishad


Capítulo 1


7. Shakti é Kundalini. Um homem sábio deve levá-la de sua morada (ou seja, o umbigo) para cima até o meio das sobrancelhas. Isso é chamado Sakti-Chala.


68-69(a). Então, ela sobe imediatamente através de Vishnugranthi [o “nó de Vishnu”, que é uma obstrução de energia no caminho percorrido pela kundalini; encontra-se na região do chakra cardíaco e impede o avanço da devoção e amor incondicionais] até o coração. Ela então sobe através de Rudragranthi [o “nó de Rudra”, outra obstrução, ou nó, que a kundalini deve superar em seu caminho do umbigo até a cabeça; este nó compromete a elevação espiritual; está localizado na região do chakra ajna]  e acima dele até o meio das sobrancelhas; tendo perfurado este lugar, ela sobe até a mandala (esfera) da lua.


Saubhagya Lakshmi Upanishad


III-9: A nona é a roda do espaço. Há o lótus com dezesseis pétalas, voltado para cima. Seu pericarpo no meio tem o formato dos "picos ondulados" (o centro das sobrancelhas). Em seu centro, deve-se meditar sobre o poder ascendente, o vazio supremo. De fato, este é o assento do "monte completo", o instrumento de realização de todos os desejos.

Monday, February 17, 2025

Sri Ramakrishna - Instrutor do Mundo

 


Mais um aniversário de Sri Ramakrishna é comemorado neste 18 de fevereiro. O advento de Thakur só pode ser explicado através da Graça Divina, que fez descer à Terra mais um jagat guru, o instrutor do mundo, epíteto dado a Ramakrishna e também a Krishna. Krishna instrui os homens através de Seus passatempos no campo de batalha e no campo do amor supremo, e Ramakrishna instrui como se chega a Krishna e como se tornar um com Ele. Sri Ramakrishna, chamado de “o louco de Deus”, afirmou aquilo que apenas um avatar poderia: que Deus é tanto pessoal quanto impessoal, tanto Brahman quanto Sua energia, tanto o espírito quanto a matéria - uma sanidade capaz de abalar muitas mentes daquela época e do contemporâneo. Uma instrução primordial que Ele deixou foi: “Tudo isso [referindo-Se às conversas filosóficas] não leva a nada. Apenas Deus pode dizer o que Ele é”, afinal, apesar dos constantes debates entre os distintos ramos da Vedanta, no fim, apenas o próprio Deus poderia concluir quem ou o que Ele realmente é, se com forma ou sem forma, se dualista ou monista, se é pai ou se é mãe. Sri Ramakrishna é o paradoxo de um pandit quase iletrado, tudo que sabe vem de dentro, não é livresco, é real, dotado com uma força e conhecimento inatos, uma renúncia sem igual, um verdadeiro Paramahamsa. Sri Ramakrishna instruiu discípulos monásticos, chefes de família e muitas mulheres. Sua adoração à Mãe Divina colocava a energia feminina de Deus em primeiro plano, assim Ele instruiu para que o aspecto Shakti de Deus fosse adorado e levado em consideração. Para praticarem o amor à Mãe Divina, Ele trouxe Sri Sarada Devi, a personificação de Shakti, para perto dos devotos de então e para outros inúmeros que tomaram refúgio aos pés Dela futuramente. As instruções Dele ecoam até hoje, 189 anos após Sua vinda, porque com elas é possível decifrar Deus e Seus poderes, Sua ilusão, Seus jogos. O que Ramakrishna deixou ao mundo foram instruções de como se tornar o açúcar, não apenas experimentá-lo, ou: ser como Deus, não apenas idealizá-Lo.

Wednesday, February 12, 2025

Desvendando O Místico Ponto Entre As Sobrancelhas - Parte 1

 


O ponto entre as sobrancelhas é um lugar místico para os yogues e sábios, indo além das tradições hindus e budistas para ser um ensinamento também no taoismo e cristianismo. Este ponto é uma intersecção entre mundo material e mundo espiritual, e dotado de imensa força psíquica. Há diversas meditações prescritas focando neste ponto e preceitos que instruem este ponto em específico como um dos focos do praticante - além do ponto de concentração no coração. 


Localizado entre as sobrancelhas, este ponto místico é reconhecido como uma porta entreaberta para a consciência plena e elevada, sendo que abrir completamente tal porta depende da prática de purificação do aspirante. Este ponto marca o centro do encontro entre uma linha horizontal (que simboliza o mundo físico) e uma vertical (que simboliza o divino). Tal intersecção é fonte de expansão psíquica e introspecção.


A este ponto são atribuídas denominações como chakra ajna, terceiro olho e/ou glândula pineal, mas independente de se tentar categorizar este ponto de energia, ele é um centro para a força da intuição, da inspiração e das sugestão espirituais (no sentido mediúnico do termo). 


Muito tratado como o “olho espiritual”, este ponto é mencionado no Evangelho de Mateus, quando é dito: “A luz do corpo é o olho. Se, portanto, seu olho for bom, todo o seu corpo se encherá de luz”, o que tutela este ponto como a residência da chispa divina, o “local” onde nosso espírito “reside” no corpo. Este ponto deve ser meditado e é indicado por tradições taoistas como o melhor ponto para que o espírito deixe o corpo no momento da morte. Para eles, há vários pontos por onde o espírito deixa o corpo quando este morre, dentre eles estão os olhos, ouvidos, boca, nariz, moleira e órgãos genitais, além do ponto entre as sobrancelhas, indicado como “a melhor saída do espírito”.


Nos hinduísmos (o que agrega todas as denominações, como shaktas, shaivas, vaishnavas, etc.), a região do ponto está sempre belamente adornada com joias, bindhis, kumkum, tilaka e demais adereços. É neste ponto que devemos focar (além do coração) quando fazemos reverências tocando a cabeça no chão diante das deidades. 


Há inúmeras passagens nos Upanishads que referenciam este ponto como uma chave na vida e na sadhana do aspirante, dada a importância de que o praticante “descubra” a função deste ponto em sua purificação espiritual. 


º º º

Nada Bindu Upanishad

4. Em seu coração [do aspirante], está situado Janoloka [dimensão do conhecimento]; Tapoloka em sua garganta [dimensão da austeridade, meditação e presença divina]; e Satyaloka [ou Brahmaloka, dimensão de Brahma, o criador] no centro da testa, entre as sobrancelhas. 


Dhyana Bindu Upanishad

32-34(a). Então, através da expiração, deve-se meditar sobre o Shiva de três olhos entre as duas sobrancelhas, brilhando como um cristal puro, imaculado, destruindo todos os pecados, sendo como um lótus voltado para baixo, com sua flor (ou face) para baixo e o caule para cima, ou como a flor de uma bananeira, sendo da forma de todos os Vedas, contendo cem pétalas e cem folhas e tendo o pericarpo totalmente expandido.


39. Tendo feito a posição de lótus da forma de Ardha-Matra [o estado espiritual mais elevado, sem qualidades] deve-se puxar a respiração através do caule (dos canais susumna, ida e pingala) e absorvê-la no meio das sobrancelhas.


40. Ele [o praticante] deve saber que o meio das sobrancelhas na testa, que também é a raiz do nariz, é a sede do néctar. Essa é a grande morada de Brahman.


Yoga Tattva Upanishad

24(b)-25. Agora ouça sobre Hatha Yoga. É dito que esta Yoga possui os seguintes oito preceitos: yama (tolerância), niyama (observância religiosa), asana (postura), pranayama (supressão da respiração), pratyahara (subjugação dos sentidos), dharana (concentração), dhyana, a meditação e contemplação em Hari no meio das sobrancelhas, e samadhi, que é o estado de igualdade.


94(b)-96. Do coração até o meio das sobrancelhas é conhecido como a região de vayu [o elemento ar]. Vayu tem formato hexagonal, cor preta e brilha com a letra “ya”. Levando a respiração ao longo da região de vayu, deve-se contemplar Ishvara, o Onisciente, como possuindo faces em todos os lados; e praticando Dharana ali por duas horas, entra-se em vayu e então em akasha [o elemento espaço].


97-98(a). O Yogi não encontra sua morte por medo de vayu. Do centro das sobrancelhas até o topo da cabeça é dito ser a região de akasha, que é circular no formato, tem cor esfumaçada e brilha com a letra “ha”.


117(b)-118(a). Com a língua enfiada na cavidade interna da cabeça (ou garganta) e com os olhos fixos no ponto entre as sobrancelhas, isso é chamado Khechari-Mudra.


Yoga Chudamani

82. O Hamsa Mantra (mantra do cisne) brilha no entremeio dos dois olhos; a letra “sa” [em hamsa] é conhecida como kechari, que significa “aquilo que viaja pelo céu”. É consentido que “sa” equivale à palavra “tvam” (tu) no famoso dizer védico “Tat Tvam Assi”, “você é Aquilo”.


Tripura Tapini Upanishad

1.1: Agora, nesta esfera de ignorância, o Senhor Sadashiva, assumindo os disfarces de Prajapati, Vishnu e Rudra, vem a ser denominado Deusa Tripura. Por Seu Poder primordial são moldadas as três moradas – a terra, a atmosfera e os céus, ou os céus, a terra e o mundo inferior. Na forma da sílaba-semente “hrim”, idêntica à ilusão de Hara [Shiva], a divina Hrillekha permeia, com Seu terrível poder, o cume dos três picos, acima da junção das duas sobrancelhas, o assento de equilíbrio dos três gunas, e a região onde o mundo dos objetos é dissolvido. Esta mesma divindade é chamada Tripura.


[Continua]

Sunday, February 9, 2025

Bhaja Govinda: Willow Smith


Alçada à fama com a epítome pop de “Whip my hair” aos 9 anos, Willow Smith tem muito mais a oferecer musicalmente do que hits comerciais. A cantora (e também atriz e musicista) é devota convicta de Krishna, seguidora da ISKCON e não esconde sua inclinação espiritual vaishnava, trazendo temas da Consciência de Krishna para seu repertório e ostentando símbolos devocionais, como a tilaka, como seu adereço mais marcante esteticamente.

No recente pocket show que fez no Tiny Desk da NPR, Willow deixa clara sua devoção a Krishna não somente por estar adornada com a tilaka, mas principalmente porque sua voz emana uma certa bem-aventurança que os devotados desenvolvem e demonstram naturalmente. 



Um repertório que abrange músicas de sucesso, como “Wait a minute!”, e novas (até então) - que integram seu álbum de 2024, o sexto de carreira, Empathogen -, como “Big Feelings”, a apresentação é carregada de bhava (emoção espiritual) e rasa (de sabor doce). Dotada de uma voz macia e forte, Willow brinca com diferentes timbres vocais enquanto conduz as melodias que vão do alt-jazz e art-pop ao R’n’B e soul.


Seus laços com a Consciência de Krishna permeiam toda sua discografia, a exemplo de composições como “And Contentment”, “Female Energy”, “Transparent Soul”, “Hover like a Goddess”, “False Self” e outros temas, além de lançamentos especiais como ao lado de Jahnavi Harrison (que não tem qualquer parentesco com George Harrison), com quem lançou o EP Rise, inspirado por kirtans, mantras e bhakti-yoga. 




Wednesday, January 29, 2025

Yoga Chudamani Upanishad

 


Este Upanishad sobre a Joia Suprema da Yoga ressalta algumas práticas para o aspirante atingir os frutos de yug, a união com o Supremo, como as práticas de contemplação do Hamsa Mantra e Pranayama. Na tradução para o inglês de P.R. Ramachander há muitos versos indisponíveis, mas é possível ler o Upanishad na íntegra na versão (em inglês) de Swami Satyadharma.


Baixe em PDF: Academia.edu.


º º º

Om! Que meus membros e minha fala, o prana, os olhos, ouvidos, a vitalidade

E todos os sentidos tornem-se fortes. 

Toda a existência é o Brahman dos Upanishads.

Que eu nunca renegue Brahman, nem que Brahman renegue e mim.

Que não haja negação alguma.

Que não haja negação alguma vinda de mim.

Que as virtudes proclamadas nos Upanishad estejam em mim,

Que sou devotado ao Atma. 

Que elas estejam comigo.

Om! Que haja Paz em mim!

Que haja Paz no ambiente!

Que haja Paz nas forças que agem sobre mim! 

1. Eu narrarei o Yoga Chudamani Upanishad com a intenção de fazer bem aos yogues. Este Upanishad é muito apreciado pelos mais antigos conhecedores da Yoga. Ele é secreto e capaz de conceder a salvação.

(Versos 2-29 estão indisponíveis)

30. A Jivatma (a alma do indivíduo físico) está sob controle do prana, que sobe e desce, assim como de apana [outro tipo de ar vital]. O apana atrai o prana, o prana atrai o apana. Aquele que conhece e percebe esta atração mútua, que se move para cima e para baixo, compreende Yoga.

31. Este movimento [da respiração] vai para fora com o som de “ha” e volta para dentro com o som de “sa”. Os seres vivos entoam este mantra como “Hamsa, hamsa”.

32. Os seres estão sempre entoando este mantra, dia e noite, 21.600 vezes por dia.

33. Este mantra, chamado Ajapa Gayatri, traz a salvação para todos os yogues. Apenas um pensamento sobre este mantra já ajuda a livrar-se de todos os pecados.

34. Não há prática tão sagrada quanto esta, nenhuma entoação se equivale a esta, nenhuma sabedoria é equivalente, e, no futuro, é improvável que haja outra.

35. O Ajapa Gayatri que ascende da kundalini sustenta a alma. Esta é a maior dentre as ciências da alma. Quem souber disso, conhecerá os Vedas. 

36. O poder da kundalini está acima do muladhara em sua forma com oito pétalas [costumeiramente, o muladhara contém quatro pétalas; com oito pétalas, é sua versão transcendental] e está sempre cobrindo a boca de sushumna [o canal de energia mais importante que conecta os chakras], que é o portão de Brahman. 

37. É a Kundalini Parameshwari (a Deusa do Universo) que atravessa o portão de Brahman, fecha o portão com a boca e adormece.

38. Devido ao calor gerado pela prática da yoga, devido à velocidade do ar vital e devido ao poder mental dela, ela se levanta e, usando seu corpo em formato de agulha, sobe atravessando o canal sushumna. 

39. Assim como as portas de uma casa se abrem ao usar uma chave, o yogi deve abrir o portão da salvação usando a Kundalini. 

(Versos 40-71 estão indisponíveis)

72.1. Parabrahman é Om, é aquilo que existe, que é limpo, pleno de sabedoria, que não possui desvantagens, que é imaculado, indescritível, que não possui começo ou fim, que é um e apenas um, que é turiya, que existe em coisas do passado, do presente e do futuro, e que jamais será dividido. A partir deste Parabrahman emerge Parashakti, o aspecto feminino. Ela é a alma autorresplandecente. A partir desta alma surge o éter. Do éter surge o vento. Do vento surge o fogo. Do fogo surge a água, e da água, a terra. Estes cinco elementos são governados pelos cinco deuses: Sadashiva, Ishwara, Rudra, Vishnu e Brahma. Dentre eles, Brahma, Vishnu e Rudra fazem o trabalho da criação, manutenção e destruição, respectivamente. Brahma é rajásico, Vishnu é sátvico e Rudra é tamásico. Eles têm três propriedades distintas.

72.2. Dentre os deuses, Brahma foi o que primeiro surgiu. Dentre os que surgiram primeiro, Brahma se tornou o criador, Vishnu o mantenedor e Rudra o destruidor. De Brahma surgiram os mundos, os deuses, os homens e tudo aquilo entre eles. Dele nasceram coisas que não se movem. No caso do homem, o corpo é a forma unificada dos pancha bhutas (os cinco elementos). Os órgãos de conhecimento (jnanendriyas), os órgãos de ação (karmendriyas), as atividades relacionadas ao conhecimento e os cinco ares do corpo (prana, apana, etc.) estão na porção micro da mente; o intelecto, o poder de decisão e o sentimento de eu estão na porção macro e são chamados de sthula. Os órgãos de conhecimento, de ação, os cinco ares do corpo e o aspecto micro da mente e do intelecto são chamados de linga. O corpo tem três tipos de propriedades. Por isso, todos possuem três corpos. 

Há quatro estados do corpo: estado de vigília, sonho, sono e turiya (estado espiritual exaltado). Os Purushas [Mestres] que habitam em nosso corpo e que controlam esses estados são Viswa [o mestre do consciente; habita a dimensão física], Thaijasa [o mestre do subconsciente; habita a dimensão sutil], Prajna [o mestre do inconsciente; habita a dimensão da bem-aventurança (ananda)] e Atma [sarvasakshi, a testemunha de todos os estados simultaneamente e além deles]. Viswa detém as experiências macro. Diferente dele, Thaijasa detém as experiências micro. Prajna detém as experiências prazerosas. Atma é a testemunha de todos eles. 

73. O Atma, cuja forma é a de “Om”, está em todos os seres. 

74. Nas três letras, A, U e M, três Vedas, três mundos, três características, três letras e três sons brilham. Deste modo, Pranava [Om] brilha. Quando despertos, a letra A existe nos olhos de todos os seres; quando sonham, a letra U existe no pescoço [e garganta] de todos os seres; e a letra M existe no coração de todos os seres quando eles adormecem. 

75-78. A letra A existe em estado embrionário como Viswa, e no estado de pinda como Virat Purusha. A letra U existe como Thaijasa e Hiranyagarbha no estado micro. A letra M existe como estado causal e como Prajna. A letra A possui qualidades rajásicas, é vermelha e sua forma é a mesma do Senhor Brahma. A letra U possui qualidades sátvicas e sua forma é como a do Vishnu branco. A letra M possui qualidades tamásicas e sua forma é como a do Rudra negro. Brahma nasceu de Pranava. Vishnu também surgiu a partir dele, assim como Rudra. Pranava é o Parabrahman (Deus Supremo). Brahma se funde à letra A, Vishnu se funde à letra U e Rudra se funde à letra M. Em pessoas com sabedoria, Pranava está disposto para cima e entre os ignorantes está disposto para baixo. 

79. Pranava existe desta maneira. Aquele que sabe disso, conhece os Vedas. Na forma do som anahatha [o som do cosmos que é “ouvido” pelo chakra cardíaco], o Pranava se desenvolve verticalmente no caso das pessoas sábias.

80. O som de Pranava é contínuo como o fluxo do óleo e é longo como o som de um sino. Seu pico é Brahman.

81. Este pico se ilumina de maneira tão brilhante que não pode ser descrito com palavras. Os grandes sábios descobrem isso usando o intelecto afiado. Aquele que sabe disso é considerado como um conhecedor dos Vedas.

82. O Hamsa Mantra (mantra do cisne) brilha no entremeio dos dois olhos; a letra “sa” [em hamsa] é conhecida como kechari, que significa “aquilo que viaja pelo céu”. É consentido que “sa” equivale à palavra “tvam” (tu) no famoso dizer védico “Tat Tvam Assi”, “você é Aquilo”.

83. É consentido que a letra “ha”, que é o Senhor de todo o universo, é a palavra “tat” (“aquilo”), no dizer mencionado anteriormente. Temos que meditar que a letra “sa” é a alma viajando entre nascimento e morte, e a letra “ha” é o Deus estável.

84. A entidade viva está presa a seus órgãos, mas Paramatma não. A entidade viva é egoísta, mas a alma não está presa pelo egoísmo e é independente.

85. A luz etérea que é Om é também o Atma, em cujos aspectos surgem os três mundos: Bhu [plano terreno], Bhuva [plano intermediário] e Svah [plano celestial]. É também onde residem os três deuses das luzes: Agni (fogo), Soma (lua) e Surya (sol) [que residem nas três letras respectivamente].

86. A luz etérea que é o Om é também o Atma, em cujos aspectos surgem a “ação”, que é o poder de Brahma, a “vontade”, que é o poder de Rudra, e o “conhecimento”, que é o poder de Vishnu. 

87. Porque o Om é a luz etérea, ele deve ser pronunciado com palavras, praticado com o corpo e meditado com a mente. 

88. Aquele que recita Pranava, esteja ele limpo ou sujo, não ficará preso aos pecados que comete, como a folha de lótus que nunca se molha.

(Versos 89-102 estão indisponíveis)

103. Doze repetições de Om, que são chamadas de puraka, seguidas por dezesseis repetições de Om, que são chamadas de kumbhaka, e depois dez repetições de Om, que são chamadas de rechaka, é chamado de Pranayama.

104. A regra básica para fazer Pranayama é de, no mínimo, doze vezes, o que é considerado pouco; duas vezes essa quantidade (24) é considerada média; três vezes (36) é considerada uthama, a melhor.

105. No nível mais baixo, surge o suor; no nível médio, tremores; em uthama, a obtenção do objetivo. Após isso, surge o controle da respiração.

106. O Yogi deve, primeiramente, saudar seu Guru e o Senhor Shiva, e sentar-se na posição de lótus, concentrar a visão na ponta do nariz e praticar pranayama sozinho.

(Versos 107-108 estão indisponíveis)

109. Através da posição (de lótus), evitam-se as doenças; através de pranayama, evitam-se os pecados; através de pratyahara [retenção dos sentidos], controla-se a atividade mental.

110. Através da fé, a mente se fortalece e o Samadhi concede um conhecimento maravilhoso à entidade viva, e ela atinge a salvação, após serem destruídas as ações sagradas e as pecaminosas.

(Versos 111-112 estão indisponíveis)

113. Após [o yogi] ver o Paramjyothi [a luz de Parabrahman], que se espalha por toda parte, em Samadhi, os deveres e ações não permanecem nem passam.

(Versos 114-115 estão indisponíveis)

116. Se permanecermos firmes em pranayama, todas as doenças serão destruídas. As doenças se manifestam apenas para aqueles que são incapazes de fazer pranayama. 

(Versos 117-119 estão indisponíveis)

120. Pratyahara é o estado onde os órgãos dos sentidos, como os olhos, não se envolvem com os objetos externos, mas voltam-se para dentro de si mesmos. 

121. Assim como o sol retrai seus raios no terceiro período do crepúsculo [quando restam os últimos raios do sol], o yogi que está no terceiro estado [uthama] controla sua mente. 

Om! Que meus membros e minha fala, o prana, os olhos, ouvidos, a vitalidade

E todos os sentidos tornem-se fortes. 

Toda a existência é o Brahman dos Upanishads.

Que eu nunca renegue Brahman, nem que Brahman renegue e mim.

Que não haja negação alguma.

Que não haja negação alguma vinda de mim.

Que as virtudes proclamadas nos Upanishad estejam em mim,

Que sou devotado ao Atma. 

Que elas estejam comigo.

Om! Que haja Paz em mim!

Que haja Paz no ambiente!

Que haja Paz nas forças que agem sobre mim! 

Aqui termina o Yoga Chudamani Upanishad, como contido no Sama Veda. 

º º º

Traduzido para o inglês por P. R. Ramachander

Traduzido para o Português por Mariângela Carvalho

[N. do T.: As informações em colchetes são adendos do tradutor.]


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