Friday, December 20, 2024

O Evangelho da Santa Mãe Sri Sarada Devi

 

Foto de Sri Sarada Devi em Baghbazar, em Calcutá, no ano bengali de 1311, 1905 d.C.


Na antevéspera de mais uma comemoração de aniversário da Santa Mãe, celebrado no próximo dia 22, nada mais propício e auspicioso do que experimentar o néctar da vida Dela através da leitura do Evangelho da Santa Mãe Sri Sarada Devi. O livro é um diário de memórias de discípulos monásticos e leigos que conviveram com a Santa Mãe e tem ensinamentos essenciais.

O Evangelho da Santa Mãe Sri Sarada Devi é a tradução do Shri Shri Mayer Katha, em bengali, publicado pelo Ramakrishna Math de Chenai. O original foi ampliado com mais estórias, organizado e traduzido para a versão em inglês por Swami Nikhilananda (que recebeu iniciação com a própria Mãe), em 1984. 

Baixe O Evangelho da Santa Mãe Sri Sarada Devi em PDF: Academia.edu

Jay Maa. 

Wednesday, December 18, 2024

Kali Santarana Upanishad

 


Neste Upanishad é revelado o segredo para fazer a travessia correta (santarana) na época de ferro (Kali Yuga), através de um curto diálogo entre o eterno devoto Narada com Brahma. Como proceder nesse mar de ilusão e dualidades, que é a vida material, está ao alcance de todos, como explicado pelos sábios.


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º º º

Om! Que Ele nos proteja, que Ele nos alimente.

Que possamos trabalhar juntos com grande energia.

Que nosso estudo seja vigoroso e eficiente.

Que não disputemos mutuamente (ou, que não odiemos ninguém).

Om! Que haja Paz em mim!

Que haja Paz no ambiente!

Que haja Paz nas forças que agem sobre mim!


Hari Om!


Ao final da Dwapara Yuga [quando Sri Krishna deixa o corpo, findando assim a Terceira Era], Narada foi até Brahma e se dirigiu a ele desta maneira: “Ó Senhor, como posso eu, que perambulo pela Terra, ser capaz de atravessar Kali?”. Brahma respondeu: “Bem perguntado. Ouça com atenção aquilo que todos os Shrutis (os Vedas) mantêm em segredo e guardado, com o qual pode se atravessar samsara (a existência terrena) de Kali. Livre-se (dos efeitos nocivos) de Kali através da mera repetição do nome do Senhor Narayana, que é o Purusha [alma suprema] primevo”.


Narada perguntou novamente: “Qual é o nome?”, ao que Hiranyagarbha (Brahma) respondeu:


“Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare

Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare” 


“Esses dezesseis nomes (palavras) são destruidores de todos os efeitos nocivos de Kali. Não há melhor maneira do que essa em todos os Vedas. Esses dezesseis nomes destroem a avarana - ou a força centrípeta que produz o sentido de individualidade - da Jiva, que está rodeada pelos dezesseis kalas (raios). Então, assim como a esfera do sol brilha plenamente após as nuvens que o cobriam dissiparem, o Parabrahman [Paramatma] brilha.”


Narada perguntou: “Ó Senhor, quais são as regras que devem ser observadas referentes a isso?”. Brahma respondeu que não há regras. Quem, em estado puro ou impuro, profere estas palavras sempre, alcança o mesmo mundo, ou proximidade, ou a mesma forma, ou absorção em Brahman.


Quem proferir três crores e meio (trinta e cinco milhões) de vezes este Mantra composto por dezesseis nomes supera o pecado de assassinar um Brâmane. Ele se purifica do pecado de roubar ouro. Ele se purifica do pecado da coabitação com uma mulher de casta baixa. Ele se purifica dos erros cometidos com os pritis [antepassados], Devas [deuses] e homens. Libertando-se de todos os Dharmas, ele se liberta de todos seus pecados de uma vez por todas. Ele é liberado de toda a servidão de uma vez por todas. 


Que ele seja liberado de toda a escravidão. Assim é este Upanishad.


Hari Om Tat Sat.


Om! Que Ele nos proteja, que Ele nos alimente.

Que possamos trabalhar juntos com grande energia.

Que nosso estudo seja vigoroso e eficiente.

Que não disputemos mutuamente (ou, que não odiemos ninguém).

Om! Que haja Paz em mim!

Que haja Paz no ambiente!

Que haja Paz nas forças que agem sobre mim!


Aqui termina o Kali Santarana Upanishad, como contido no Krishna Yajur Veda. 


º º º

Traduzido para o inglês por K. Narayanaswami Aiyar

Traduzido para o português por Mariângela Carvalho

[N. do T.: as informações em colchetes são adendos do tradutor.]

Monday, December 16, 2024

Bhaja Govinda: Shelter (show em São Paulo)

 


Eu estava esperando chegar o show do Shelter para dar início a esta seção, Bhaja Govinda, com artistas musicais que foram inspirados diretamente pelas ideias da Vedanta e/ou influenciados pelo movimento bhakti de adoração a Krishna.

Bhaja Govinda quer dizer “cante/saúde a Govinda”, um dos muitos nomes de Sri Krishna, além de ser um adorado texto - por parte dos monistas (advaitins) e dos dualistas (dvaitins) de Adi Shankaracharya sobre a devoção.

O Shelter, na ativa desde 1991, praticamente dispensa apresentações quando se trata de punk/hardcore e a intersecção com a devoção a Hari. Reconhecidos como “fundadores” do estilo Krishna Core, a banda instituiu um estilo único que juntou a fúria consciente do punk/hardcore e da cultura straight-edge com a adoração de Krishna. Se George Harrison espalhou o movimento Hare Krishna para o mundo nos anos 1970, o Shelter deu continuidade nos anos 1990, atingindo uma nova geração de jovens interessados em rock e contraculturas. Não é exagero dizer que a banda contribuiu muito para dar uma roupagem diferente aos novos devotos de Krishna nos Estados Unidos - e além, como no Brasil - 20 anos depois da passagem de Srila Prabhupada por lá, uma nova geração de quase adultos que já se viam sufocados pelo consumismo, pela cultura de rivalidades e que buscavam um outro sentido para a vida - tudo isso ouvindo pesados acordes de guitarra e o típico vocal de Ray Cappo, com suas letras sobre adoração, reverências, reflexões vedanticas e sobre a vida cotidiana.


Após duas décadas sem se apresentar no Brasil, o quarteto retornou ao país para um show em Curitiba e outro em São Paulo, no domingo, 15 de dezembro, quando foi recebido com calor e roda de pogo pelo público. Animados com o show, os integrantes demonstraram muito daquela energia juvenil que tornou a banda um expoente do hardcore de Nova York. No setlist, músicas como “Appreciation”, “Better Way”, “Hated to Love”, “Empathy”, “Here We Go Again” e outras não deram descanso para o público. Particularmente, senti falta de ter “Busy Doing Nothing” no repertório. Na plateia era possível perceber as diferentes gerações de pessoas que acompanhavam o show: os mais velhos, que acompanham a banda há anos, uma molecada nova - muitos deles ostentando o emblemático X straight-edge na mão -, e devotos de Krishna, com seus kanti [cordão em volta do pescoço], shikha [tufo de cabelo] e tocando manjira entre uma música e outra. Que cena para se presenciar: Deus está mesmo em todos os lugares, até num show de hardcore. 


Eu aguardava especialmente o momento em que eles cantassem o Mahamantra Hare Krishna, que aconteceu já perto do final. Foi uma sensação única poder entoar os versos daquela maneira, num ambiente pouco propício para tal. A verdade é que o Mahamantra é tão poderoso que está acima dessa dualidade de ter um local propício para ser cantado ou não. Mas presenciar tal momento já é um dos meus itens de memorabilia devocional preferidos. 


O final não poderia ter sido melhor: ouvir ao vivo a recitação da invocação que abre a música “Shelter” e cantar em coro “I need your shelter”. No encerramento, para minha surpresa, tocou “Govinda”, na belíssima versão do álbum Radha Krishna Temple, certamente um dos meus discos preferidos desta vida. Uma experiência de devoção combinada com som pesado: gostamos. 



Wednesday, December 11, 2024

Bhagavad Gita Jayanti

 


O aparecimento/aniversário (jayanti) do Bhagavad Gita está sendo  celebrado hoje, 11 de dezembro, em todos os corações tocados pela flauta de Krishna. O Gita “aparece” na Terra, há 5.161 anos, quando Sri Krishna instrui Arjuna sobre seus deveres perante o campo de Kurukshetra e dá instruções de como viver nesse mundo de dualidades e ilusões sem se amarrar às causas e efeitos das ações. Dentre tantos ensinamentos que transformam vidas, um especialmente tocante é quando o Senhor descreve as qualidades do devoto puro, aquele por quem o próprio Krishna tem muito afeto. O trecho, presente no capítulo 12, deve ser lido e relido de tempos em tempos para medirmos nosso avanço - ou retrocesso - no caminho para nos tornarmos o devoto perfeito. Este capítulo do Gita é tão imprescindível para quem almeja ser um verdadeiro devoto que nele contém uma das gemas do livro, o Amrita Ashtakam, ou oitos versos de néctar, que se referem ao excerto entre os versos 13 e 20.


º º º

Capítulo 12

Serviço Devocional 

Trecho do Bhagavad Gita Como Ele É, de Srila Prabhupada

VERSO 1: Arjuna perguntou: Quais são considerados os mais perfeitos, aqueles que sempre estão devidamente ocupados em Seu serviço devocional, ou aqueles que adoram o Brahman impessoal, o imanifesto?

VERSO 2: A Suprema Personalidade de Deus disse: Aqueles que fixam suas mentes na Minha forma pessoal e sempre se ocupam em Me adorar com uma fé forte e transcendental, são considerados por Mim como os mais perfeitos.

VERSOS 3-4: Mas aqueles que adoram plenamente o imanifesto, aquilo que está além da percepção dos sentidos, o onipenetrante, inconcebível, imutável, fixo e imóvel — a concepção impessoal da Verdade Absoluta — controlando os vários sentidos e sendo equânimes para com todos, tais pessoas, ocupadas em prol do bem-estar de todos, acabarão Me alcançando.

VERSO 5: Para aqueles cujas mentes estão apegadas ao aspecto impessoal e imanifesto do Supremo, o progresso é muito problemático. Progredir nesta disciplina é sempre difícil para aqueles que estão encarnados. 

VERSOS 6-7: Mas aqueles que Me adoram, dedicando todas as suas atividades a Mim e não se afastando de sua devoção a Mim, ocupando-se no serviço devocional e sempre meditando em Mim, tendo fixado suas mentes em Mim, ó filho de Pṛthā — para eles Eu sou o pronto salvador do oceano de nascimentos e mortes. 

VERSO 8: Fixe sua mente em Mim, a Suprema Personalidade de Deus, e ocupe toda a sua inteligência em Mim. Assim, não haverá dúvida alguma de que você viverá sempre em Mim.

VERSO 9: Meu querido Arjuna, ó conquistador de riquezas, se você não pode fixar sua mente em Mim sem se desviar, então, siga os princípios reguladores que fazem parte da bhakti-yoga. Desenvolva deste modo um desejo de Me alcançar.

VERSO 10: Se você não pode praticar as regulações que fazem parte da bhakti-yoga, então, simplesmente tente trabalhar para Mim. Porque, trabalhando para Mim, você chegará à fase perfeita.

VERSO 11: Se, entretanto, você é incapaz de trabalhar nesta Minha consciência, então, tente agir renunciando a todos os resultados de seu trabalho e procure situar-se no eu.

VERSO 12: Se você não pode adotar esta prática, então, ocupe-se no cultivo de conhecimento. Entretanto, melhor do que o conhecimento é a meditação, e melhor do que a meditação é a renúncia aos frutos da ação, pois, com esta renúncia, pode-se alcançar paz de espírito.

VERSOS 13-14: Aquele que não é invejoso, mas é um amigo bondoso para todas as entidades vivas, que não se considera proprietário e está livre do falso ego, que é equânime tanto na felicidade quanto na aflição, que é tolerante, sempre satisfeito, autocontrolado e ocupa-se em serviço devocional com determinação, tendo sua mente e inteligência fixas em Mim — semelhante devoto Me é muito querido.

VERSO 15: Aquele que não põe ninguém em dificuldades e a quem ninguém perturba, que é equânime na felicidade e na aflição, no medo e na ansiedade, Me é muito querido. 

VERSO 16: Esse meu devoto que não depende da rotina habitual de suas atividades, que é puro, perito, despreocupado, livre de todas as dores, e que não está lutando para obter algum resultado, Me é muito querido. 

VERSO 17: Aquele que não se alegra nem se magoa, que não se lamenta nem deseja, e que renuncia tanto às coisas auspiciosas quanto às inauspiciosas — semelhante devoto Me é muito querido.

VERSOS 18-19: Aquele que é igual para com amigos e inimigos; que é equânime na honra e na desonra, calor e frio, felicidade e aflição, fama e infâmia; que está sempre livre de associação contaminadora, sempre silencioso e satisfeito com qualquer coisa, que não se importa com nenhuma residência; que está fixo em conhecimento e se ocupa em serviço devocional — semelhante pessoa Me é muito querida. 

VERSO 20: Aqueles que seguem este caminho imperecível do serviço devocional e que se ocupam com plena fé, fazendo de Mim a meta suprema, são muitíssimo queridos por Mim.

Saturday, November 30, 2024

A Autorrefulgência do Atma | Atma Bodha

 


A autorrefulgência do Atma é mencionada em vários manuscritos e está sempre presente quando precisamos descrever as qualidades do mesmo, como neste trecho do Atma Bodha, de Sri Shankaracharya. 

º º º 

23. A natureza do atma é Eternidade, Pureza, Realidade, Consciência e Bem-Aventurança, assim como a luminosidade do sol, o frescor da água e o calor do fogo.

24. A noção de “eu sei” é produzida pela união, devido ao discernimento incorreto, de uma modificação da mente com dois aspectos do atma: a Existência e a Consciência.

25. O atma não sofre mudanças, e buddhi [a mente] nunca é dotado de consciência. Porém, as pessoas acreditam que o atma é idêntico ao buddhi e se iludem pensando que elas mesmas são o conhecedor ou aquele que percebe [o mundo].

26. A Alma que se reconhece como jiva [impermanente] é dominada pelo medo do mesmo jeito que um homem ao considerar uma corda como sendo uma cobra. A Alma recobra o destemor ao perceber que ela não é a jiva, mas a própria Alma Suprema.

27. A mente, os órgãos dos sentidos e etc. são iluminados apenas pelo atma, assim como um jarro ou tigela são iluminados por uma lamparina. Mas tais objetos não podem iluminar a si mesmos.

28. Assim como uma lamparina não precisa de outra lamparina para iluminar a si mesma, o Atma, sendo a própria Consciência, não precisa de outro instrumento de consciência para iluminar a si mesmo.

º º º

Traduzido da versão em inglês de Swami Nikhilananda

Traduzido para o português por Mariângela Carvalho

Publicado por Sri Ramakrishna Math, Madras


[N. do T.: As informações em colchetes são adendos do tradutor.]

Monday, November 25, 2024

O Algoritmo da Sadhana

Rene Magritte, Meditation, 1937


A execução de sadhana é um princípio seminal no caminho de purificação espiritual e para a aquisição de fortitude, discernimento e convicção. O tipo de sadhana depende do tipo de praticante e suas inclinações, mas é possível dizer que não há limites para escolher algumas práticas espirituais e permanecer nelas. Tudo pode se tornar uma sadhana se a intenção for corretamente dirigida, todas as atividades diárias podem se tornar uma prática espiritual dependendo da intenção com que são executadas. Os estudos podem se tornar uma sadhana; o momento de oração e/ou de recitação de mantras é uma sadhana que pode ter horários específicos para acontecer, ou podem ser feitos mentalmente a qualquer momento - é uma ótima sadhana tentar pensar em Deus durante os afazeres para treinar a mente a sempre estar Nele; o serviço devocional é uma importante e renovadora sadhana. A prática espiritual deve ser constante e sempre bem nutrida de alimentos como devoção, estudos, ouvir os ensinamentos dos Gurus, contemplação, oração, meditação, repetição de mantra, conversas com Deus, serviço abnegado, esforço frequente, renúncia e tantos outros. Assim como passamos horas do dia alimentando nossos algoritmos virtuais, com aquilo que consumimos e procuramos na internet para que eles nos entreguem conteúdos que apreciamos, a sadhana tem também seu próprio algoritmo que funciona sendo alimentado por nossos atos visíveis e invisíveis, e a frequência deles. Quanto mais alimentamos este algoritmo divino, mais ele nos entregará aquilo que buscamos: quanto mais devoção você dispende ao seu algoritmo, mais devoção ele te entrega; quanto mais renúncia você emprega nele, mais renúncia recebe; quanto mais concentração você empenha, mais concentração terá. Alimentar e estimular este algoritmo vai resultar em muitas realizações pessoais e muitos véus da ilusão caindo, além de ser uma fonte de felicidade para o praticante. Nas palavras da Santa Mãe: "A mente se purifica após árduas práticas. Sem a prática regular, não se conquista nada".

Wednesday, November 20, 2024

Hamsa Upanishad

 


A relação entre a natureza do Hamsa e OM (e seus desdobramentos) é o tema do Hamsa Upanishad, um tratado essencial para compreender os estados de consciência e seu percurso até atingir o estado Supremo, onde tudo repousa e obtem-se a experiência direta de transcendência.


Baixe em PDF: Academia.edu.


º º º 

Hamsa Upanishad


Om! Brahman é o Absoluto, este universo é o Absoluto.

Do absoluto surge o absoluto.

Retirando o absoluto do (universo) absoluto,

Resta apenas aquele Brahman absoluto.

Om! Que haja paz em mim.

Que haja paz no ambiente.

Que haja paz nas forças que agem sobre mim.

1. Gautama se dirigiu a Sanatkumara assim: “Ó Senhor, tu és o conhecedor de todos os Dharmas e versado em todos os Shastras, diga-me de qual maneira posso obter o conhecimento de Brahmavidya, por favor”. 

2. Sanatkumara respondeu: “Ouça, ó Gautama, aquele tattva [princípio, verdade], como exposto por Parvati após investigar todos os Dharmas e verificar a opinião de Shiva, é o conhecimento correto”.

3. Este tratado sobre a natureza de Hamsa, que concede o fruto da bem-aventurança e da salvação, e que é como um tesouro para o Yogue, é uma ciência muito mística e não deve ser revelado ao público.

4. Agora, vamos explicar a verdadeira natureza de Hamsa e Paramahamsa para o benefício do Brahmacharin (um buscador de Brahman e celibatário), que tem seus desejos controlados, é devotado a seu Guru e sempre contempla Hamsa e realiza que:

O Hamsa permeia todos os corpos como o fogo (ou o calor) em todos os tipos de madeira, ou em todos os tipos de óleo de sementes. Conhecendo-o assim, não se encontra a morte.

Tendo contraído o anus (com os calcanhares pressionados contra eles), erguido vayu (a respiração) do muladhara chakra [chakra base] através de um circuito triplo em volta do svadhisthana chakra [chakra sacro], chegado ao manipura chakra [chakra do plexo solar], atravessado o anahata chakra [chakra cardíaco], mantido o prana no visuddhi chakra [chakra da garganta] e alcançado o ajna chakra [o “terceiro olho”, no meio das sobrancelhas], a pessoa entra em contemplação em brahmarandhra [chakra coronário] no topo da cabeça e, tendo sempre meditado neste lugar com “Eu sou feito dos três matras”, reconhece seu Ser e se torna sem forma. [Os três matras correspondem às três letras que formam o OM, AUM*] (...) Isto é aquele Paramahamsa (o Hamsa Supremo, ou Ser Superior), que possui a resplandecência de crores de sóis e quem permeia todo este mundo.


[*Está contido na sílaba OM: 1. Jagrat, estado de vigília; corresponde ao som A em OM; é a criação; 2. Svapna, estado de sonho, corresponde ao som de U em OM; é a conservação; 3. Sushupti, estado de sono profundo; corresponde ao som de M em OM; é a dissolução; 4. Turiya, transcendência; corresponde ao silêncio após o OM; 5. Turiyatita, além da transcendência.]

Este Hamsa, que tem o intelecto (buddhi) como veículo, possui oito atividades. Quando está na pétala [do lótus do chakra] leste, existe a inclinação de uma pessoa para as ações virtuosas; na pétala sudeste, existe sono, preguiça; na pétala sul, há inclinação para a crueldade; na pétala sudoeste, há inclinação aos pecados; na pétala oeste, há inclinação para atividades sensuais; na noroeste, surge o desejo de caminhar e outros; na norte, surge o desejo por luxúria; na noroeste, surge o desejo de acumular dinheiro; na do meio (ou nos entremeios entre as pétalas), há a indiferença aos prazeres materiais. No filamento do lótus, surge o estado de vigília; no pericarpo, surge o svapna, o estado de sonho; em bija (a semente do pericarpo) surge sushupti, o estado do sono sem sonho; ao sair do lótus, tem-se turiya, o quarto estado [estado de unidade]. Quando Hamsa está absorto em nada [o som místico], o estado além do quarto é alcançado. Nada, que se encontra no fim do som e além da fala e da mente, é como um cristal puro que se estende do muladhara até o brahmarandhra. Ele é conhecido também como Brahman e Paramatma.

Aqui é dada a execução do Ajapa Gayatri: 

Agora, Hamsa é o rishi [o sábio]; a métrica é a do Avyakta Gayatri; Paramahamsa é a Deidade que preside; ‘Ham’ é a sílaba-semente; ‘Sa’ é a Shakti; So’ham é kilaka [um pilar; o pilar onde o mantra está ancorado]. Assim sendo, há seis passos. Há 21.600 Hamsas (ou respirações) em um dia e uma noite. Saudações a Surya, Soma, Niranjana (o imaculado) e Nirabhasa (o sem universo) [i.e. o ilimitado]. Que o incorpóreo e sutil me guiem (ou iluminem minha compreensão). Saudações a Agni-Soma. Depois, tem-se os anganyasas e karanyasas [ambos referem-se ao processo de tocar partes específicas do corpo enquanto recita mantras], que devem ser executados depois dos mantras, mesmo que sejam feitos geralmente antes, dentro do coração e outros assentos [do Atma]. Tendo feito assim, deve-se contemplar Hamsa como o Atma em seu próprio coração. Agni e soma são suas asas, a direita e a esquerda; o Omkara é sua cabeça; ukara e bindu são os três olhos e a face, respectivamente; Rudra e sua esposa, Rudrani, são os pés de Kanthata (ou a realização da unidade de Jivatma e Hamsa, do eu menor com o Paramatma, ou Paramahamsa, o Eu Superior), que são de dois modos: Samprajnata e Asamprajnata [dois estilos distintos de meditação ou estados de consciência]. 

Após isso, Unmani [um dos três estados de consciência transcendental] é a culminação do Ajapa mantra. Tendo assim refletido sobre manas [a mente] através do Aquilo (Hamsa), ouve-se o som nada após recitar este japa um crore de vezes. O nada que começa a ser ouvido é de dez tipos. O primeiro é chini, que faz o som igual ao de sua escrita; o segundo é chini-chini; o terceiro é o som de um sino; o quarto é o da concha; o quinto é o do tantiri (alaúde); o sexto é o som de tala (pratos); o sétimo o da flauta; o oitavo o do bheri (tambor); o nono é o de mridanga (tambor duplo); o décimo é o das nuvens (os trovões). Pode-se experimentar o décimo sem os primeiros nove sons (através da iniciação de um Guru). No primeiro estado, o corpo se torna chini-chini; no segundo, surge a ruptura (bhanjana) do corpo; no terceiro, surge a perfuração (bhedana); no quarto, a cabeça treme; no quinto, o palato produz saliva; no sexto, o néctar é alcançado; no sétimo, o conhecimento daquilo que está escondido surge; no oitavo, para-vak [a voz Suprema] é ouvido; no nono, o corpo se torna invisível e o olho divino puro se desenvolve; no décimo, atinge-se Para-Brahman na presença (ou com o) do Atma, que é Brahman.

Na sequência, quando manas é destruída, quando ela, que é a fonte de sankalpa e vikalpa [pensamento e dúvida] desaparece, devido à destruição de ambos, e quando as virtudes e os pecados são queimados, ele brilha como Sadashiva, da natureza de Shakti que permeia tudo, sendo ele o OM, a refulgência em sua própria essência, o imaculado, o eterno, puro e mais quiescente. Assim é o ensinamento dos Vedas, e assim é o Upanishad.

Om! Brahman é o Absoluto, este universo é o Absoluto.

Do absoluto surge o absoluto.

Retirando o absoluto do (universo) absoluto,

Resta apenas aquele Brahman absoluto.

Om! Que haja paz em mim.

Que haja paz no ambiente.

Que haja paz nas forças que agem sobre mim.


Aqui termina o Hamsa Upanishad, como contido no Sukla-Yajur-Veda. 


º º º

Traduzido para o inglês por K. Narayanaswami Aiyar

Traduzido para o português por Mariângela Carvalho

[N. do T.: As informações em colchetes são adendos do tradutor.]

Os Últimos Dias de Radhu

Cena que retrata o momento em que Sri Sarada Devi tem uma visão de  Sri Ramakrishna sobre a sobrinha Radhu Este texto curto é um post feito ...