Tuesday, January 21, 2025

As flores são o sorriso de Krishna

 


Uma vez, ouvi do Swami Chandramukha que as flores são o sorriso de Krishna. Nunca esqueci dessas palavras. As flores desabrocham quando o Senhor abre Seu sorriso divino, além de serem uma das expressões mais belas da criação de Deus.


Prabhupada contou que quando vemos uma flor, estamos vendo o sorriso de Krishna, por isso, devemos utilizá-las em Seu serviço, uma vez que tudo é a energia Dele. “Uma flor que sentimos o perfume, que adoramos. Isso é gratificação dos sentidos. Igualmente, a mesma flor, se oferecida a Krishna em uma guirlanda, com a qual Ele sentirá o perfume e sentirá prazer, é bhakti”, disse Shrila em uma de suas conversas. 


A literatura vaishnava frequentemente descreve Krishna como sorridente e risonho. Aquele Seu sorriso de Gopala, que tanto enfeitiçou os moradores de Gokul por Sua graça de criança, é o mesmo que encorajou Arjuna quando este se encontrava prestes a desistir da guerra no campo de Kurukshetra. No Gita 2:10-12, temos: “Naquele momento, Krishna, no meio dos dois exércitos, sorriu e disse as seguintes palavras ao desconsolado Arjuna: ‘Ao falar palavras cultas, você está lamentando pelo que não é digno de pesar. Sábios são aqueles que não se lamentam nem pelos vivos nem pelos mortos. Nunca houve um tempo em que Eu não existisse, nem você, nem todos esses reis; e no futuro nenhum de nós deixará de existir’”. Este trecho, muito comentado pelos acharyas, enfatiza que foi a partir do sorriso de Krishna que Arjuna se assegurou de que a guerra seria por um bem maior.




No Srimad Bhagavatam 2.1.31, o sorriso de flores de Krishna é retratado como “a energia material ilusória mais atraente”. É explicado que, no mundo espiritual, o sorriso de Krishna é a energia mais cativante, mas quando essa energia é refletida no mundo material, ela inverte e se torna maya, a energia que prende as entidades vivas à ilusão e à luxúria. Ainda no Bhagavatam (3.28.32), é dito: “Um iogue deve meditar no mais benevolente sorriso do Senhor Hari, um sorriso que, para todos aqueles que se curvam a Ele, enxuga o oceano de lágrimas causadas por intensa tristeza”. Em outro momento (3.8.27), é dito que os devotos não pedem nada ao Senhor em troca pelo serviço devocional a Ele. Até mesmo a mais alta liberação é recusada pelos devotos, embora seja oferecida pelo Senhor. Dessa maneira, o Senhor torna-Se um “devedor” do devoto e a única maneira de “pagar” pelos serviços devocionais é oferecendo Seu encantador sorriso. 



Embora existam milhares de nomes dados a Deus, destacam-se dois em especial que relacionam a beleza das flores ao fascinante sorriso de Krishna. O primeiro é a alcunha Mukunda, formada pelas palavras mukha (face) e kunda (a flor chamada jasmim-estrela), sendo assim conhecido como “Aquele cuja face é tão bela quanto a sempre sorridente flor de jasmim-estrela”. No Vishnu Sahasranama (Mil Nomes de Vishnu), o título nº 952 é Puspa Hasa, ou “aquele cuja manifestação como Universo se assemelha ao desabrochar de botões em flores” e “aquele que desabrocha como uma flor no momento da criação primordial”.


A energia do sorriso de flores de Krishna emana para e através do devoto, e faz com que o sorriso deste se torne poderoso. Prabhupada afirma que simplesmente ao sorrir, o devoto conquista muitos discípulos, admiradores e seguidores. 


Lembre-se sempre que vir uma flor: ali está o sorriso de Deus. 

Saturday, January 18, 2025

Swami Vivekananda Jayanti

 

Altar para o Puja de Swami Vivekananda em São Paulo, 2025

No domingo, amanhã, 19 de janeiro de 2025, será comemorado o jayanti de Swami Vivekananda em Ashramas do Brasil e de todo o planeta. Marcando os 162 anos de seu nascimento, é sempre bom lembrar que Vivekananda teve uma vida brevíssima, estando materialmente no mundo por apenas 39 anos. A força de sua vida e obra é tamanha que sua relevância é influente até hoje. Os ideias deixados por ele ultrapassaram sua mensagem religiosa - ainda que esta seja sua maior eloquência - para gerar comoção social e cultural nos Estados Unidos e Europa, e sócio-política na Índia. Sempre à frente de seu tempo, ele inspirou uma mudança no pensamento indiano: o de que a opressão do povo indiano não estava apenas atrelado à opressão do império britânico, mas sim à uma servidão mental, sem Deus e sem a consciência de Atma. Tal visão de Swamiji sobre a servidão mental foi força-motriz para a independência da Índia e o surgimento de movimentos como o Swadeshi e figuras como Mahatma Gandhi e Subhas Chandra Bose. 

Foi Vivekananda também que teve o olhar sobre o iminente poder feminino, a própria Shakti Divina, que se erguia no mundo na virada dos séculos XIX-XX, adiantando uma tendência que mexeu com o status quo ao longo dos séculos XX-XXI: o feminismo e o empoderamento feminino. É claro que Vivekananda não adiantou tais ideias da maneira como as conhecemos hoje, mas foi um dos precursores ao perceber que a mulher deveria receber mais educação e adquirir independência/autonomia - daí a fundação da Escola de Nivedita. Esta proposta que Swamiji via como uma chave para transformar a sociedade indiana - e mundial - estava intimamente ligada à presença da Santa Mãe Sarada Devi, Ela mesma a personificação de Shakti, uma vez que foi a Mãe e Seu imenso poder feminino (o de criar) que colocaram a Ordem Ramakrishna em movimento, e foi com as bênçãos Dela que ele partiu para o mundo para falar sobre Deus, a Vedanta, o Atma. É através dessa força divina da Santa Mãe que tudo se fez e prosperou. Vivekananda sempre soube e prezou imensamente por isso; ele sabia que a polaridade masculino-feminino estava mudando para feminino-masculino, e que isso traria alteração significativa para a sociedade no futuro (que é o dia de hoje). 

Este são apenas alguns de muitos exemplos do quanto Vivekananda é visionário e possuidor de uma mensagem-atitude que transforma mentalidades universalmente. Ele é o símbolo da juventude (no dia de seu aniversário propriamente dito, 12 de janeiro, é comemorado o Dia Nacional da Juventude, na Índia) porque suas ideias são frescas, vivas e estão prontas para sacudir o mundo, como manda a insígnia dos sempre jovens.   

Thursday, January 16, 2025

Paramahamsa Upanishad

 

Nicholas Roerich - Blessed Soul: Bhagavan Sri Ramakrishna Paramahamsa, 1924

O Upanishad do Grande Cisne (Paramahamsa) reforça mais uma vez a qualidade suprema das Grandes Almas: a renúncia. Atingir o estado de Paramahamsa é se despir de todos os conceitos e não-conceitos, das dualidades e da unidade, do “eu” e “tu” , da realidade (material e mental) fenomênica e até de Deus. 

Baixe em PDF: Academia.edu

º º º

Om! Brahman é o Absoluto, este universo é o Absoluto.

Do absoluto surge o absoluto.

Retirando o absoluto do (universo) absoluto,

Resta apenas aquele Brahman absoluto.

Om! Que haja paz em mim.

Que haja paz no ambiente.

Que haja paz nas forças que agem sobre mim.


1. “Qual é o caminho dos Paramahamsa Yogues e quais são seus deveres?”, foi a pergunta que Narada fez ao se aproximar do Senhor Brahma (o Criador). A ele, o Senhor respondeu: “O caminho dos Paramahamsas que você indaga está acessível à duras penas para as pessoas; não há muitos expoentes dele [o Paramahamsa puro], e é o suficiente que exista apenas um. Em verdade, ele repousa no sempre-puro Brahman; ele é o próprio Brahman proposto nos Vedas. Assim os conhecedores da Verdade afirmam: ele [o Paramahamsa] é o maior porque repousa toda sua mente sempre em Mim, e Eu, também, por este motivo, resido nele”. 


Tendo renunciado aos seus filhos, amigos, esposa, amizades e etc., tendo se desfeito de shikha [o tufo de cabelo atrás da cabeça], do cordão sagrado, do estudo dos Vedas, de todos os trabalhos e também do universo, ele deve usar kaupina [peça de vestuário masculino como uma tanga], o cajado e apenas roupas o suficiente para a mínima manutenção de seu corpo, para o bem de todos. E isso não é tudo. Se for perguntado sobre o que é esse tudo, aqui está:


2. O Paramahamsa não carrega nem o cajado, nem o tufo de cabelo, nem o cordão sagrado, nem usa qualquer vestimenta. Ele não sente frio, nem calor, nem felicidade, nem miséria, nem honra, nem contentamento. É adequado que ele esteja além do alcance das seis ondas deste mundo-oceano. Tendo superado qualquer pensamento de calúnia, vaidade, ciúmes, ostentação, arrogância, apego ou antipatia aos objetos de alegria ou tristeza, luxúria, raiva, cobiça, autoilusão, exaltação, inveja, egoísmo e demais, ele considera seu corpo como um cadáver, já que destruiu de uma vez por todas a ideia de corpo. Sendo eternamente liberto da causa das dúvidas, e do conhecimento mal concebido e falso, percebendo o Eterno Brahman, ele reside aí, com a consciência de que “Eu mesmo sou Ele, eu sou Aquele que é sempre calmo, imutável, indivisível, a essência do conhecimento e bem-aventurança. Apenas Aquele é minha natureza verdadeira”.


Apenas o conhecimento (Jnana) é seu shikha. Apenas o conhecimento é seu cordão sagrado. Através do conhecimento da unidade de Jivatma com o Paramatma, a distinção entre eles se esvai totalmente. Tal unificação é sua cerimônia de Sandhya [as adorações oferecidas diariamente, no horário da injunção da noite com o dia e do dia com a noite]. 


3. Aquele que renuncia a todos os desejos obtém seu descanso supremo no Um sem um segundo. Aquele que segura o cajado do conhecimento é o verdadeiro Ekadandi [o monge renunciante]. Aquele que carrega um mero cajado de madeira, que se envolve com todos os tipos de objetos dos sentidos e que é desprovido de Jnana, vai para infernos terríveis, conhecidos como Maharauravas. Conhecendo a diferença entre ambos [os tipos de portadores do cajado], ele se torna um Paramahamsa. 


4. O ambiente é sua vestimenta, ele não se prostra diante de ninguém, não oferece oblações aos pitris [antepassados], não culpa e nem elogia ninguém - o sannyasin sempre tem força de vontade independente. Para ele não há invocação a Deus, nem qualquer cerimônia a Ele; não há mantra, não há meditação, não há adoração, já que ele não é nem o mundo fenomênico, nem Aquele que é o incognoscível. Ele não enxerga nem a dualidade e nem a unidade. Ele não vê nem “eu” nem “tu”, nem nada desse tipo. O sannyasin não tem lar. 


Ele não deve aceitar nada feito de ouro ou similares, não deve possuir discípulos ou aceitar riquezas. Ao se perguntar se há mal ao aceitá-los, a resposta é sim, há males em proceder dessa maneira. Porque se um sannyasin olhar para o ouro com desejo, ele se torna um assassino de Brahman; se um sannyasin toca o ouro com desejo, ele se degrada ao nível de um chandala [casta inferior], porque se ele detiver ouro com desejo, ele se torna um assassino do Atma. Logo, o sannyasin não deve nem olhar, tocar ou pegar ouro com desejo. Todos os desejos da mente deixam de existir e, por consequência, ela não fica agitada pela tristeza e não deseja a felicidade; surge a renúncia ao apego aos prazeres dos sentidos, ele se desapega do bem e do mal em todos os lugares, por consequência, ele nem odeia nem é exaltado.


A tendência de fluir para fora de todos os órgãos dos sentidos diminui naquele que repousa apenas no Atma. Ao realizar que “Eu sou aquele Brahman, que é Conhecimento e Bem-Aventurança infinitos”, ele chega ao fim de seus desejos, de fato, ele chega ao fim de seus desejos. 


Om! Brahman é o Absoluto, este universo é o Absoluto.

Do absoluto surge o absoluto.

Retirando o absoluto do (universo) absoluto,

Resta apenas aquele Brahman absoluto.

Om! Que haja paz em mim.

Que haja paz no ambiente.

Que haja paz nas forças que agem sobre mim.

Aqui termina o Paramahamsa Upanishad, como contido no Sukla-Yajur-Veda. 


º º º

Traduzido para o inglês por Swami Madhavananda 

Traduzido para o português por Mariângela Carvalho

Publicado pelo Advaita Ashrama, de Calcutá

[N. do T.: As informações em colchetes são adendos do tradutor.]


Friday, December 20, 2024

O Evangelho da Santa Mãe Sri Sarada Devi

 

Foto de Sri Sarada Devi em Baghbazar, em Calcutá, no ano bengali de 1311, 1905 d.C.


Na antevéspera de mais uma comemoração de aniversário da Santa Mãe, celebrado no próximo dia 22, nada mais propício e auspicioso do que experimentar o néctar da vida Dela através da leitura do Evangelho da Santa Mãe Sri Sarada Devi. O livro é um diário de memórias de discípulos monásticos e leigos que conviveram com a Santa Mãe e tem ensinamentos essenciais.

O Evangelho da Santa Mãe Sri Sarada Devi é a tradução do Shri Shri Mayer Katha, em bengali, publicado pelo Ramakrishna Math de Chenai. O original foi ampliado com mais estórias, organizado e traduzido para a versão em inglês por Swami Nikhilananda (que recebeu iniciação com a própria Mãe), em 1984. 

Baixe O Evangelho da Santa Mãe Sri Sarada Devi em PDF: Academia.edu

Jay Maa. 

Wednesday, December 18, 2024

Kali Santarana Upanishad

 


Neste Upanishad é revelado o segredo para fazer a travessia correta (santarana) na época de ferro (Kali Yuga), através de um curto diálogo entre o eterno devoto Narada com Brahma. Como proceder nesse mar de ilusão e dualidades, que é a vida material, está ao alcance de todos, como explicado pelos sábios.


Baixe em PDF: Academia.edu 


º º º

Om! Que Ele nos proteja, que Ele nos alimente.

Que possamos trabalhar juntos com grande energia.

Que nosso estudo seja vigoroso e eficiente.

Que não disputemos mutuamente (ou, que não odiemos ninguém).

Om! Que haja Paz em mim!

Que haja Paz no ambiente!

Que haja Paz nas forças que agem sobre mim!


Hari Om!


Ao final da Dwapara Yuga [quando Sri Krishna deixa o corpo, findando assim a Terceira Era], Narada foi até Brahma e se dirigiu a ele desta maneira: “Ó Senhor, como posso eu, que perambulo pela Terra, ser capaz de atravessar Kali?”. Brahma respondeu: “Bem perguntado. Ouça com atenção aquilo que todos os Shrutis (os Vedas) mantêm em segredo e guardado, com o qual pode se atravessar samsara (a existência terrena) de Kali. Livre-se (dos efeitos nocivos) de Kali através da mera repetição do nome do Senhor Narayana, que é o Purusha [alma suprema] primevo”.


Narada perguntou novamente: “Qual é o nome?”, ao que Hiranyagarbha (Brahma) respondeu:


“Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare

Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare” 


“Esses dezesseis nomes (palavras) são destruidores de todos os efeitos nocivos de Kali. Não há melhor maneira do que essa em todos os Vedas. Esses dezesseis nomes destroem a avarana - ou a força centrípeta que produz o sentido de individualidade - da Jiva, que está rodeada pelos dezesseis kalas (raios). Então, assim como a esfera do sol brilha plenamente após as nuvens que o cobriam dissiparem, o Parabrahman [Paramatma] brilha.”


Narada perguntou: “Ó Senhor, quais são as regras que devem ser observadas referentes a isso?”. Brahma respondeu que não há regras. Quem, em estado puro ou impuro, profere estas palavras sempre, alcança o mesmo mundo, ou proximidade, ou a mesma forma, ou absorção em Brahman.


Quem proferir três crores e meio (trinta e cinco milhões) de vezes este Mantra composto por dezesseis nomes supera o pecado de assassinar um Brâmane. Ele se purifica do pecado de roubar ouro. Ele se purifica do pecado da coabitação com uma mulher de casta baixa. Ele se purifica dos erros cometidos com os pritis [antepassados], Devas [deuses] e homens. Libertando-se de todos os Dharmas, ele se liberta de todos seus pecados de uma vez por todas. Ele é liberado de toda a servidão de uma vez por todas. 


Que ele seja liberado de toda a escravidão. Assim é este Upanishad.


Hari Om Tat Sat.


Om! Que Ele nos proteja, que Ele nos alimente.

Que possamos trabalhar juntos com grande energia.

Que nosso estudo seja vigoroso e eficiente.

Que não disputemos mutuamente (ou, que não odiemos ninguém).

Om! Que haja Paz em mim!

Que haja Paz no ambiente!

Que haja Paz nas forças que agem sobre mim!


Aqui termina o Kali Santarana Upanishad, como contido no Krishna Yajur Veda. 


º º º

Traduzido para o inglês por K. Narayanaswami Aiyar

Traduzido para o português por Mariângela Carvalho

[N. do T.: as informações em colchetes são adendos do tradutor.]

Monday, December 16, 2024

Bhaja Govinda: Shelter (show em São Paulo)

 


Eu estava esperando chegar o show do Shelter para dar início a esta seção, Bhaja Govinda, com artistas musicais que foram inspirados diretamente pelas ideias da Vedanta e/ou influenciados pelo movimento bhakti de adoração a Krishna.

Bhaja Govinda quer dizer “cante/saúde a Govinda”, um dos muitos nomes de Sri Krishna, além de ser um adorado texto - por parte dos monistas (advaitins) e dos dualistas (dvaitins) de Adi Shankaracharya sobre a devoção.

O Shelter, na ativa desde 1991, praticamente dispensa apresentações quando se trata de punk/hardcore e a intersecção com a devoção a Hari. Reconhecidos como “fundadores” do estilo Krishna Core, a banda instituiu um estilo único que juntou a fúria consciente do punk/hardcore e da cultura straight-edge com a adoração de Krishna. Se George Harrison espalhou o movimento Hare Krishna para o mundo nos anos 1970, o Shelter deu continuidade nos anos 1990, atingindo uma nova geração de jovens interessados em rock e contraculturas. Não é exagero dizer que a banda contribuiu muito para dar uma roupagem diferente aos novos devotos de Krishna nos Estados Unidos - e além, como no Brasil - 20 anos depois da passagem de Srila Prabhupada por lá, uma nova geração de quase adultos que já se viam sufocados pelo consumismo, pela cultura de rivalidades e que buscavam um outro sentido para a vida - tudo isso ouvindo pesados acordes de guitarra e o típico vocal de Ray Cappo, com suas letras sobre adoração, reverências, reflexões vedanticas e sobre a vida cotidiana.


Após duas décadas sem se apresentar no Brasil, o quarteto retornou ao país para um show em Curitiba e outro em São Paulo, no domingo, 15 de dezembro, quando foi recebido com calor e roda de pogo pelo público. Animados com o show, os integrantes demonstraram muito daquela energia juvenil que tornou a banda um expoente do hardcore de Nova York. No setlist, músicas como “Appreciation”, “Better Way”, “Hated to Love”, “Empathy”, “Here We Go Again” e outras não deram descanso para o público. Particularmente, senti falta de ter “Busy Doing Nothing” no repertório. Na plateia era possível perceber as diferentes gerações de pessoas que acompanhavam o show: os mais velhos, que acompanham a banda há anos, uma molecada nova - muitos deles ostentando o emblemático X straight-edge na mão -, e devotos de Krishna, com seus kanti [cordão em volta do pescoço], shikha [tufo de cabelo] e tocando manjira entre uma música e outra. Que cena para se presenciar: Deus está mesmo em todos os lugares, até num show de hardcore. 


Eu aguardava especialmente o momento em que eles cantassem o Mahamantra Hare Krishna, que aconteceu já perto do final. Foi uma sensação única poder entoar os versos daquela maneira, num ambiente pouco propício para tal. A verdade é que o Mahamantra é tão poderoso que está acima dessa dualidade de ter um local propício para ser cantado ou não. Mas presenciar tal momento já é um dos meus itens de memorabilia devocional preferidos. 


O final não poderia ter sido melhor: ouvir ao vivo a recitação da invocação que abre a música “Shelter” e cantar em coro “I need your shelter”. No encerramento, para minha surpresa, tocou “Govinda”, na belíssima versão do álbum Radha Krishna Temple, certamente um dos meus discos preferidos desta vida. Uma experiência de devoção combinada com som pesado: gostamos. 



Wednesday, December 11, 2024

Bhagavad Gita Jayanti

 


O aparecimento/aniversário (jayanti) do Bhagavad Gita está sendo  celebrado hoje, 11 de dezembro, em todos os corações tocados pela flauta de Krishna. O Gita “aparece” na Terra, há 5.161 anos, quando Sri Krishna instrui Arjuna sobre seus deveres perante o campo de Kurukshetra e dá instruções de como viver nesse mundo de dualidades e ilusões sem se amarrar às causas e efeitos das ações. Dentre tantos ensinamentos que transformam vidas, um especialmente tocante é quando o Senhor descreve as qualidades do devoto puro, aquele por quem o próprio Krishna tem muito afeto. O trecho, presente no capítulo 12, deve ser lido e relido de tempos em tempos para medirmos nosso avanço - ou retrocesso - no caminho para nos tornarmos o devoto perfeito. Este capítulo do Gita é tão imprescindível para quem almeja ser um verdadeiro devoto que nele contém uma das gemas do livro, o Amrita Ashtakam, ou oitos versos de néctar, que se referem ao excerto entre os versos 13 e 20.


º º º

Capítulo 12

Serviço Devocional 

Trecho do Bhagavad Gita Como Ele É, de Srila Prabhupada

VERSO 1: Arjuna perguntou: Quais são considerados os mais perfeitos, aqueles que sempre estão devidamente ocupados em Seu serviço devocional, ou aqueles que adoram o Brahman impessoal, o imanifesto?

VERSO 2: A Suprema Personalidade de Deus disse: Aqueles que fixam suas mentes na Minha forma pessoal e sempre se ocupam em Me adorar com uma fé forte e transcendental, são considerados por Mim como os mais perfeitos.

VERSOS 3-4: Mas aqueles que adoram plenamente o imanifesto, aquilo que está além da percepção dos sentidos, o onipenetrante, inconcebível, imutável, fixo e imóvel — a concepção impessoal da Verdade Absoluta — controlando os vários sentidos e sendo equânimes para com todos, tais pessoas, ocupadas em prol do bem-estar de todos, acabarão Me alcançando.

VERSO 5: Para aqueles cujas mentes estão apegadas ao aspecto impessoal e imanifesto do Supremo, o progresso é muito problemático. Progredir nesta disciplina é sempre difícil para aqueles que estão encarnados. 

VERSOS 6-7: Mas aqueles que Me adoram, dedicando todas as suas atividades a Mim e não se afastando de sua devoção a Mim, ocupando-se no serviço devocional e sempre meditando em Mim, tendo fixado suas mentes em Mim, ó filho de Pṛthā — para eles Eu sou o pronto salvador do oceano de nascimentos e mortes. 

VERSO 8: Fixe sua mente em Mim, a Suprema Personalidade de Deus, e ocupe toda a sua inteligência em Mim. Assim, não haverá dúvida alguma de que você viverá sempre em Mim.

VERSO 9: Meu querido Arjuna, ó conquistador de riquezas, se você não pode fixar sua mente em Mim sem se desviar, então, siga os princípios reguladores que fazem parte da bhakti-yoga. Desenvolva deste modo um desejo de Me alcançar.

VERSO 10: Se você não pode praticar as regulações que fazem parte da bhakti-yoga, então, simplesmente tente trabalhar para Mim. Porque, trabalhando para Mim, você chegará à fase perfeita.

VERSO 11: Se, entretanto, você é incapaz de trabalhar nesta Minha consciência, então, tente agir renunciando a todos os resultados de seu trabalho e procure situar-se no eu.

VERSO 12: Se você não pode adotar esta prática, então, ocupe-se no cultivo de conhecimento. Entretanto, melhor do que o conhecimento é a meditação, e melhor do que a meditação é a renúncia aos frutos da ação, pois, com esta renúncia, pode-se alcançar paz de espírito.

VERSOS 13-14: Aquele que não é invejoso, mas é um amigo bondoso para todas as entidades vivas, que não se considera proprietário e está livre do falso ego, que é equânime tanto na felicidade quanto na aflição, que é tolerante, sempre satisfeito, autocontrolado e ocupa-se em serviço devocional com determinação, tendo sua mente e inteligência fixas em Mim — semelhante devoto Me é muito querido.

VERSO 15: Aquele que não põe ninguém em dificuldades e a quem ninguém perturba, que é equânime na felicidade e na aflição, no medo e na ansiedade, Me é muito querido. 

VERSO 16: Esse meu devoto que não depende da rotina habitual de suas atividades, que é puro, perito, despreocupado, livre de todas as dores, e que não está lutando para obter algum resultado, Me é muito querido. 

VERSO 17: Aquele que não se alegra nem se magoa, que não se lamenta nem deseja, e que renuncia tanto às coisas auspiciosas quanto às inauspiciosas — semelhante devoto Me é muito querido.

VERSOS 18-19: Aquele que é igual para com amigos e inimigos; que é equânime na honra e na desonra, calor e frio, felicidade e aflição, fama e infâmia; que está sempre livre de associação contaminadora, sempre silencioso e satisfeito com qualquer coisa, que não se importa com nenhuma residência; que está fixo em conhecimento e se ocupa em serviço devocional — semelhante pessoa Me é muito querida. 

VERSO 20: Aqueles que seguem este caminho imperecível do serviço devocional e que se ocupam com plena fé, fazendo de Mim a meta suprema, são muitíssimo queridos por Mim.

Os Últimos Dias de Radhu

Cena que retrata o momento em que Sri Sarada Devi tem uma visão de  Sri Ramakrishna sobre a sobrinha Radhu Este texto curto é um post feito ...